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| Lovers At The Beach - Vanessa Villar |
Distribuía-se no Liceu de Setúbal um folheto com informações académicas, mimeografado e ocasional. Encorajados por alguns professores, o jovem Albatroz e os amigos transformaram a folha de couve num verdadeiro jornal escolar, com notícias, artigos de opinião, contos e poesia, fotografias e desenhos, impresso numa tipografia, publicado regular e frequentemente. O Reitor era um professor inteligente, que percebeu a utilidade educativa e cultural, além de lhe dar o pretexto de dispensar o nosso personagem das aulas mais inúteis, onde o seu tédio inquieto se tornava incomodativo. Para compensar, escolhia-o para falar em nome dos estudantes na recepção ao ministro de passagem ou em outros acontecimentos excepcionais. Dava-lhe o tema, mas nunca lhe pediu para aprovar previamente o que quisesse dizer.
Os jornais
Com o jornal escolar passaram também a reunir uma tertúlia, que publicava uma página semanal nos jornais da cidade com o produto das suas cogitações, que consideravam um dever partilhar com o “hoi polloi” menos intelectualmente confiante. A censura deixava correr, um dia encontrou mesmo o chefe na redacção do jornal “O Setubalense” e a quem o director do jornal o apresentou. O encontro foi puro acaso, mas a partir daí quando o via, o homem avisava sempre que lia os artigos deles “com interesse”...
Por aquela altura a cidade andava tensa, mais uma vez tinha havido greves e manifestações, súbitas e violentas, uma noite apareceram partidas praticamente todas as lâmpadas dos candeeiros do centro da cidade. Os comunistas estavam infiltrados entre operários e pescadores, forneciam ideologia e apoio organizativo. Por outro lado também atraíam a polícia do regime, que agia pela calada, em terreno inimigo, a cidade era vermelha.
A social-democracia na sede da Legião...
O Governador Civil sugeriu ao grupo que organizassem umas sessões culturais e conferências, sobre assuntos que “interessassem à juventude”. Deram-lhes como local a utilizar uma grande sala no centro da cidade, mas... era da Legião Portuguesa, rodeada de dois lados por edifícios da Polícia... A tertúlia reuniu-se, resolveu aproveitar a oportunidade, e cada qual veio com as suas preferências: música, literatura, fotografia, cinema, filosofia e, claro... política. Começaram com um pouco de tudo, mas o tema de grande sucesso foram as palestras e discussões sobre a experiência do socialismo escandinavo, a Suécia estava então na moda. Às sessões vinham bastantes colegas e alguns professores, pessoas de família e outros adultos. Para decepção do grupo, poucas pessoas que parecessem ser verdadeiros “trabalhadores”. Numa parte da sala estavam sempre alguns membros da Legião... que eram sempre os que faziam mais perguntas e mostravam maior interesse.
Discutiam o amanhã, a democracia, as opções entre capitalismo e comunismo, as vias medianas do socialismo, a justiça social. Tudo isto teórico e idealista quanto baste, por isso nunca ninguém os inquietou. Talvez porque os achassem inofensivos, talvez porque fosse Setúbal, uma causa perdida.
A "Pasionaria" possível
Foi nessas conferências que descobriu a versão local da Pasionaria (nome que lhe deu a posteriori, como balanço duma relação). Ficava para conversar quando acabavam as discussões, juntamente com outras pessoas, mas depois insinuou-se no grupo, o facto de ser uns anos mais velha do que eles, high strung, culta e atraente, dava um sentimento imediato de importância ao que faziam.
Costumavam acampar nas férias, umas vezes em Tróia, quase sempre na Arrábida. A península de Tróia era um deserto de dunas entre o rio e o mar, dum lado a caldeira e as ruínas romanas e outras, do outro lado uma fileira de esplanadas de madeira que se sucediam como apoios de praia desde o desembarcadouro até ao Bico das Lulas. Para lá era o Atlântico e a Costa da Galé, uma faixa de areia sem fim e sem ninguém. No Verão havia do lado do rio uma cidade de barracas de lona, uma espécie de Far West dos filmes americanos onde ainda não tinha chegado o xerife.
Na Arrábida, de Setúbal ao Cabo Espichel, conheciam as praias e enseadas, os caminhos dos pescadores nas passagens da baixa-mar e nas arribas, as casotas e as grutas onde se abrigavam, os castelos e os fortes, o mosteiro e as ermidas, os casais da serra e os moinhos. Tinham-se cruzado com outros caminhantes como eles e travado conhecimento com os excêntricos sociais, habitantes silvestres ou trogloditas, lunáticos filosofantes, solitários cavernículas, doidos varridos. Havia também os guardas fiscais e os contrabandistas, normalmente em simbiose nocturna.
Numas férias da Páscoa estavam no Portinho a tentar aquecer o pequeno almoço numa fogueira recalcitrante com a chuva miudinha, quando viram ao longe avançar, vindo da estrada e da paragem da camioneta, um grupo de raparigas de mochila que parou a mais de uma centena de metros e começou a desdobrar as tendas. Pararam todas menos uma, que continuou a avançar na direcção deles, sem que dessem conta, ocupados a avaliar o presente que os deuses lhes enviavam sob a forma dum bando de louras esculturais, ali mesmo à mão...
A Pasionaria estava de súbito à frente dele, distraído com a caneca de café na mão, enquanto os amigos diziam um “Olá” apressado e partiam oferecer os préstimos às finlandesas (souberam mais tarde que eram finlandesas). Ele olhou-a mudo de surpresa. “Aceito, obrigada”, disse ela e com isso tirou-lhe a caneca da mão. “Tenho uma coisa para te pedir” captou toda a sua atenção, podia sentir uma emoção nova no que era uma relação incipiente. Vir ter com ele assim, ali, parecia-lhe sério demais para ficarem à chuva, com as tendas mesmo ao lado... e os amigos ocupados lá ao longe em tarefas certamente demoradas.
Tinham conversado umas tardes na esplanada do Bonfim, passeado ocasionalmente à beira do Sado, encontrado em Lisboa e uma vez dado a mão no cinema. O cinema... um incidente que devia ser cómico, à entrada para um filme do Antonioni no “Estúdio 444” pediram-lhe o Bilhete de Identidade, a ela que era mais velha... e não lhe pediram a ele, que nessa época ainda não tinha idade para entrar... A fúria inesperada dela, que não era nem de longe a shrinking violet quando se tratava da consideração que lhe era devida, o porteiro com ar desconsertado... até que ele lhe pegou na mão e a arrastou para dentro. Foi assim que ficaram de mão dada, a mão dela que ficou a tremer de cólera algum tempo e depois apertou a dele, demasiado, numa urgência silenciosa e rígida.
Encontrava a Pasionaria em Lisboa para participar em algumas reuniões, marchas e ajuntamentos na cidade universitária, onde havia manifestações académicas, com perseguições pela polícia e correrias. Se houvesse um forcão, aquilo por vezes parecia uma largada de touros nas aldeias da raia seca. Mas havia estudantes presos e outros procurados pela polícia.
Foi portanto sem surpresa, que um dia acedeu ao pedido de esconder um colega dela num moinho isolado de que tinha a chave, para os lados do castelo de S. Filipe. Depois foi preciso faze-lo escapar para fora do país, num barco de pesca de Sesimbra que pertencia a um parente. Aberto o caminho vieram outros, poucos, alguns que obviamente não eram estudantes. Conversava com os fugitivos nos tempos de espera ou de caminhada, contavam histórias de desespero e repressão, ideias simplistas dum igualitarismo utópico, gente cuja persistência forçava a admiração, comunistas de cartilha que nunca tinham lido Marx nem sabiam dos desastres provocados pela aplicação das suas teorias. Tornara-se, sem estados de alma, numa espécie de compagnon de route.
Foi um período em que tudo era possível. A pequena participação com a Pasionaria nestas aventuras fazia-os passar longos períodos a sós, em lugares isolados numa natureza incomparável, o pôr-do-sol no mar, a chuva a bater no telhado dum moinho à noite, as manhãs da Arrábida. Com a adrenalina do risco, o afrodisíaco mais potente que existe, a descoberta do diálogo mental e físico, a energia da juventude que parece nunca ceder ao cansaço, quando a harmonia aparece devagar, despontando a medo, até se impor avassaladora e final. Conversavam, discutiam, zangavam-se, faziam as pazes. A maturidade não depende tanto dos anos como do acumular das experiências. Como era mais velha do que ele, irritava-a que ele lhe disputasse a liderança intelectual, chamava-lhe arrogante, céptico, convencido, sisudo, autoritário e tudo o mais que lhe passasse pela cabaça. Um dia, por provocação, ele respondeu-lhe que o porteiro do cinema tinha tido intuitivamente razão, que ele era mais velho do que ela em idade mental... Ah, o que foi dizer! Felizmente não devia haver ninguém num raio de quilómetros, porque os gritos de indignação primeiro e os da reconciliação depois, devem ter ecoado pelos montes e ter sido ouvidos pelos barcos ao largo...
Até ao dia em que a Pasionaria e ele foram apanhados como ratos numa ratoeira, três polícias num carro esperavam por eles no portão dum casal da serra onde lhes deveria ser entregue mais tarde uma “encomenda”, que depois levariam até perto de Sesimbra ao cuidado do Ti José Casaca. Alegaram evidentemente que procuravam apenas um lugar discreto para estarem sós. Mas os polícias decidiram esperar dentro da casa até à manhã seguinte. Felizmente não apareceu mais ninguém, quem devia vir detectou a tempo o sinal de perigo, ou melhor, a falta do sinal de que estava tudo em ordem. Mas levaram-nos presos para Lisboa à mesma e nos interrogatórios passaram um mau bocado, até que influências exteriores os fizeram libertar.
Houve um certo escândalo quando isto se soube na cidade, escândalo depressa abafado, como um constrangimento, ninguém sabia bem o que dizer. O ano escolar estava a acabar e o incidente perdeu o interesse com a partida dele para a Faculdade em Lisboa e a colocação da Pasionaria numa cidade do Norte. Um ao outro, disseram as coisas comuns e não faltou sequer o cliché da despedida na estação do comboio em Lisboa. Haviam de trocar cartas, poemas, promessas, mas por pouco tempo e cada vez menos convincentes, até se extinguirem.
Ele sabia por experiência que cada mudança era uma vida nova, uma reincarnação onde entrava sem bagagem. Todas as suas partidas deixaram para trás os amigos e as cumplicidades, um pedaço de vida frozen in time. Cada chegada era o recomeçar dum processo de socialização, a intuição cada vez mais apurada no reconhecimento das afinidades e das indiferenças, uma condição de sobrevivência emocional. Com o tempo tornou-se um modo de vida, afastamentos e reencontros acontecem como se os intervalos fossem apenas pontes entre a mesma realidade, que pode continuar onde foi interrompida, ou se nunca mais se proporcionar uma continuação, fica suspensa na memória dum universo paralelo.
Nunca questionou o facto da Pasionaria pretender que era exaltante viver num tempo de luta contra o que ela chamava “a tirania”, uma história de amor com a aventura possível, um tempo roubado à vida rotineira que certamente os esperava mais tarde. As noites podiam ser longas e ele gostava de ouvir a música da voz dela, as suas convicções, as suas histórias, os seus sonhos. Para si próprio, não podia deixar de pensar que ambos eram apenas peões descartáveis numa resistência insignificante ao regime de então, a sua razão demasiado céptica para todas as ideologias, e ainda menos para as autoritárias. Mas ela própria, a sua personalidade, o seu entusiasmo e a sua maneira de ser, carinhosa e competitiva, deixaram-lhe um vazio físico e emocional durante muito tempo, como se estivesse incompleto. Nunca olhou para trás. Há coisas que devem ser deixadas quietas, caídas no sítio onde ficaram, pois com elas ficaram os ideais e as ilusões do tempo da inocência.
JSR







