Saturday, 18 December 2010

11 - A Cidade Vermelha

Lovers At The Beach - Vanessa Villar
Distribuía-se no Liceu de Setúbal um folheto com informações académicas, mimeografado e ocasional. Encorajados por alguns professores, o jovem Albatroz e os amigos transformaram a folha de couve num verdadeiro jornal escolar, com notícias, artigos de opinião, contos e poesia, fotografias e desenhos, impresso numa tipografia, publicado regular e frequentemente. O Reitor era um professor inteligente, que percebeu a utilidade educativa e cultural, além de lhe dar o pretexto de dispensar o nosso personagem das aulas mais inúteis, onde o seu tédio inquieto se tornava incomodativo. Para compensar, escolhia-o para falar em nome dos estudantes na recepção ao ministro de passagem ou em outros acontecimentos excepcionais. Dava-lhe o tema, mas nunca lhe pediu para aprovar previamente o que quisesse dizer.
Os jornais
Com o jornal escolar passaram também a reunir uma tertúlia, que publicava uma página semanal nos jornais da cidade com o produto das suas cogitações, que consideravam um dever partilhar com o “hoi polloi” menos intelectualmente confiante. A censura deixava correr, um dia encontrou mesmo o chefe na redacção do jornal “O Setubalense” e a quem o director do jornal o apresentou. O encontro foi puro acaso, mas a partir daí quando o via, o homem avisava sempre que lia os artigos deles “com interesse”... 
Por aquela altura a cidade andava tensa, mais uma vez tinha havido greves e manifestações, súbitas e violentas, uma noite apareceram partidas praticamente todas as lâmpadas dos candeeiros do centro da cidade. Os comunistas estavam infiltrados entre operários e pescadores, forneciam ideologia e apoio organizativo. Por outro lado também atraíam a polícia do regime, que agia pela calada, em terreno inimigo, a cidade era vermelha.
A social-democracia na sede da Legião...
O Governador Civil sugeriu ao grupo que organizassem umas sessões culturais e conferências, sobre assuntos que “interessassem à juventude”. Deram-lhes como local a utilizar uma grande sala no centro da cidade, mas... era da Legião Portuguesa, rodeada de dois lados por edifícios da Polícia... A tertúlia reuniu-se, resolveu aproveitar a oportunidade,  e cada qual veio com as suas preferências: música, literatura, fotografia, cinema, filosofia e, claro... política. Começaram com um pouco de tudo, mas o tema de grande sucesso foram as palestras e discussões sobre a experiência do socialismo escandinavo, a Suécia estava então na moda. Às sessões vinham bastantes colegas e alguns professores, pessoas de família e outros adultos. Para decepção do grupo, poucas pessoas que parecessem ser verdadeiros “trabalhadores”. Numa parte da sala estavam sempre alguns membros da Legião... que eram sempre os que faziam mais perguntas e mostravam maior interesse.
Discutiam o amanhã, a democracia, as opções entre capitalismo e comunismo, as vias medianas do socialismo, a justiça social. Tudo isto teórico e idealista quanto baste, por isso nunca ninguém os inquietou. Talvez porque os achassem inofensivos, talvez porque fosse Setúbal, uma causa perdida.
A "Pasionaria" possível
Foi nessas conferências que descobriu a versão local da Pasionaria (nome que lhe deu a posteriori, como balanço duma relação). Ficava para conversar quando acabavam as discussões, juntamente com outras pessoas, mas depois insinuou-se no grupo, o facto de ser uns anos mais velha do que eles, high strung, culta e atraente, dava um sentimento imediato de importância ao que faziam.
Costumavam acampar nas férias, umas vezes em Tróia, quase sempre na Arrábida. A península de Tróia era um deserto de dunas entre o rio e o mar, dum lado a caldeira e as ruínas romanas e outras, do outro lado uma fileira de esplanadas de madeira que se sucediam como apoios de praia desde o desembarcadouro até ao Bico das Lulas. Para lá era o Atlântico e a Costa da Galé, uma faixa de areia sem fim e sem ninguém. No Verão havia do lado do rio uma cidade de barracas de lona, uma espécie de Far West dos filmes americanos onde ainda não tinha chegado o xerife.
Na Arrábida, de Setúbal ao Cabo Espichel, conheciam as praias e enseadas, os caminhos dos pescadores nas passagens da baixa-mar e nas arribas, as casotas e as grutas onde se abrigavam, os castelos e os fortes, o mosteiro e as ermidas, os casais da serra e os moinhos. Tinham-se cruzado com outros caminhantes como eles e travado conhecimento com os excêntricos sociais, habitantes silvestres ou trogloditas, lunáticos filosofantes, solitários cavernículas, doidos varridos. Havia também os guardas fiscais e os contrabandistas, normalmente em simbiose nocturna.
Numas férias da Páscoa estavam no Portinho a tentar aquecer o pequeno almoço numa fogueira recalcitrante com a chuva miudinha, quando viram ao longe avançar, vindo da estrada e da paragem da camioneta, um grupo de raparigas de mochila que parou a mais de uma centena de metros e começou a desdobrar as tendas. Pararam todas menos uma, que continuou a avançar na direcção deles, sem que dessem conta, ocupados a avaliar o presente que os deuses lhes enviavam sob a forma dum bando de louras esculturais, ali mesmo à mão...
A Pasionaria estava de súbito à frente dele, distraído com a caneca de café na mão, enquanto os amigos diziam um “Olá” apressado e partiam oferecer os préstimos às finlandesas (souberam mais tarde que eram finlandesas). Ele olhou-a mudo de surpresa. “Aceito, obrigada”, disse ela e com isso tirou-lhe a caneca da mão. “Tenho uma coisa para te pedir” captou toda a sua atenção, podia sentir uma emoção nova no que era uma relação incipiente. Vir ter com ele assim, ali, parecia-lhe sério demais para ficarem à chuva, com as tendas mesmo ao lado... e os amigos ocupados lá ao longe em tarefas certamente demoradas.
Tinham conversado umas tardes na esplanada do Bonfim, passeado ocasionalmente à beira do Sado, encontrado em Lisboa e uma vez dado a mão no cinema. O cinema... um incidente que devia ser cómico, à entrada para um filme do Antonioni no “Estúdio 444” pediram-lhe o Bilhete de Identidade, a ela que era mais velha... e não lhe pediram a ele, que nessa época ainda não tinha idade para entrar... A fúria inesperada dela, que não era nem de longe a shrinking violet quando se tratava da consideração que lhe era devida, o porteiro com ar desconsertado... até que ele lhe pegou na mão e a arrastou para dentro. Foi assim que ficaram de mão dada, a mão dela que ficou a tremer de cólera algum tempo e depois apertou a dele, demasiado, numa urgência silenciosa e rígida.
Encontrava a Pasionaria em Lisboa para participar em algumas reuniões, marchas e ajuntamentos na cidade universitária, onde havia manifestações académicas, com perseguições pela polícia e correrias. Se houvesse um forcão, aquilo por vezes parecia uma largada de touros nas aldeias da raia seca. Mas havia estudantes presos e outros procurados pela polícia.
Foi portanto sem surpresa, que um dia acedeu ao pedido de esconder um colega dela num moinho isolado de que tinha a chave, para os lados do castelo de S. Filipe. Depois foi preciso faze-lo escapar para fora do país, num barco de pesca de Sesimbra que pertencia a um parente. Aberto o caminho vieram outros, poucos, alguns que obviamente não eram estudantes. Conversava com os fugitivos nos tempos de espera ou de caminhada, contavam histórias de desespero e repressão, ideias simplistas dum igualitarismo utópico, gente cuja persistência forçava a admiração, comunistas de cartilha que nunca tinham lido Marx nem sabiam dos desastres provocados pela aplicação das suas teorias. Tornara-se, sem estados de alma, numa espécie de compagnon de route.
Foi um período em que tudo era possível. A pequena participação com a Pasionaria nestas aventuras fazia-os passar longos períodos a sós, em lugares isolados numa natureza incomparável, o pôr-do-sol no mar, a chuva a bater no telhado dum moinho à noite, as manhãs da Arrábida. Com a adrenalina do risco, o afrodisíaco mais potente que existe, a descoberta do diálogo mental e físico, a energia da juventude que parece nunca ceder ao cansaço, quando a harmonia aparece devagar, despontando a medo, até se impor avassaladora e final. Conversavam, discutiam, zangavam-se, faziam as pazes. A maturidade não depende tanto dos anos como do acumular das experiências. Como era mais velha do que ele, irritava-a que ele lhe disputasse a liderança intelectual, chamava-lhe arrogante, céptico, convencido, sisudo, autoritário e tudo o mais que lhe passasse pela cabaça. Um dia, por provocação, ele respondeu-lhe que o porteiro do cinema tinha tido intuitivamente razão, que ele era mais velho do que ela em idade mental... Ah, o que foi dizer! Felizmente não devia haver ninguém num raio de quilómetros, porque os gritos de indignação primeiro e os da reconciliação depois, devem ter ecoado pelos montes e ter sido ouvidos pelos barcos ao largo...
Até ao dia em que a Pasionaria e ele foram apanhados como ratos numa ratoeira, três polícias num carro esperavam por eles no portão dum casal da serra onde lhes deveria ser entregue mais tarde uma “encomenda”, que depois levariam até perto de Sesimbra ao cuidado do Ti José Casaca. Alegaram evidentemente que procuravam apenas um lugar discreto para estarem sós. Mas os polícias decidiram esperar dentro da casa até à manhã seguinte. Felizmente não apareceu mais ninguém, quem devia vir detectou a tempo o sinal de perigo, ou melhor, a falta do sinal de que estava tudo em ordem. Mas levaram-nos presos para Lisboa à mesma e nos interrogatórios passaram um mau bocado, até que influências exteriores os fizeram libertar. 
Houve um certo escândalo quando isto se soube na cidade, escândalo depressa abafado, como um constrangimento, ninguém sabia bem o que dizer. O ano escolar estava a acabar e o incidente perdeu o interesse com a partida dele para a Faculdade em Lisboa e a colocação da Pasionaria numa cidade do Norte. Um ao outro, disseram as coisas comuns e não faltou sequer o cliché da despedida na estação do comboio em Lisboa. Haviam de trocar cartas, poemas, promessas, mas por pouco tempo e cada vez menos convincentes, até se extinguirem.
Ele sabia por experiência que cada mudança era uma vida nova, uma reincarnação onde entrava sem bagagem. Todas  as suas partidas deixaram para trás os amigos e as cumplicidades, um pedaço de vida frozen in time. Cada chegada era o recomeçar dum processo de socialização, a intuição cada vez mais apurada no reconhecimento das afinidades e das indiferenças, uma condição de sobrevivência emocional. Com o tempo tornou-se um modo de vida, afastamentos e reencontros acontecem como se os intervalos fossem apenas pontes entre a mesma realidade, que pode continuar onde foi interrompida, ou se nunca mais se proporcionar uma continuação, fica suspensa na memória dum universo paralelo.
Nunca questionou o facto da Pasionaria pretender que era exaltante viver num tempo de luta contra o que ela chamava “a tirania”, uma história de amor com a aventura possível, um tempo roubado à vida rotineira que certamente os esperava mais tarde. As noites podiam ser longas e ele gostava de ouvir a música da voz dela, as suas convicções, as suas histórias, os seus sonhos. Para si próprio, não podia deixar de pensar que ambos eram apenas peões descartáveis numa resistência insignificante ao regime de então, a sua razão demasiado céptica para todas as ideologias, e ainda menos para as autoritárias. Mas ela própria, a sua personalidade, o seu entusiasmo e a sua maneira de ser, carinhosa e competitiva, deixaram-lhe um vazio físico e emocional durante muito tempo, como se estivesse incompleto. Nunca olhou para trás. Há coisas que devem ser deixadas quietas, caídas no sítio onde ficaram, pois com elas ficaram os ideais e as ilusões do tempo da inocência. 
JSR

Wednesday, 15 December 2010

10 - A Filha da Sargenta

Domenico Ghirlandaio - Portrait
Perto da casa da família em Setúbal, morava a “Sargenta”, chamavam-lhe assim por ser viúva dum Sargento da Marinha. Morava na “casa estreita”, uma porta no rés-do-chão, no primeiro andar uma janela de sacada, no segundo uma janela de peitoril e no telhado uma janela de sótão. A Sargenta era uma mulher de idade indefinida, pequena, magra, escura, de carrapito, sempre vestida de preto, de olho vivo, de palavra fácil e curiosidade descarada.
A primeira vez que a encontrou, ela parou-o na rua para lhe dizer tudo o que sabia sobre ele e sobre a sua família, disse-lhe também quem ela era e começou a fazer-lhe perguntas. Diante do seu silêncio embaraçado, respondia ela própria às perguntas, até que ele recuperou da perplexidade, disse “Então adeus” e desandou. Soube depois que a mulher vivia na casa estreita com duas irmãs, ainda mais pequenas e escuras, mas estas silenciosas e quase invisíveis, e uma filha. Da vez seguinte em que a Sargenta o viu, encostou-o à parede e não o deixou partir antes de lhe dar o recado: a filha estava em vésperas de exames finais na Escola Comercial, precisava urgentemente dumas explicações de matemática, “quando é que ele podia ir lá a casa?” Han? “Depois digo”. 
Tinha a firme intenção de não dizer coisa nenhuma, nunca mais, que raio de abuso, mas a avó fê-lo reconsiderar, solidariedade e não sei quê e que mais, e insistiu, insistiu, mas não explicou que razões ela tinha. Ele lá acabou por ir, contrariado. Por dentro, a casa era uma espécie de antro tenebroso em forma de torre, cheia de móveis antigos e panos bordados, nem se atreveu a tocar na chávena de chá e ainda menos nos bolinhos. Mas quando a filha apareceu... surpresa, surpresa... viu que era loura, clara, linda... embora aparentemente tímida e fugidia como uma corça. Um mistério da genética e um milagre da natureza.
Uma criada que trabalhava na casa dele referia-se sempre à casa estreita como “a casa das bruxas”, dizia que a filha da Sargenta era “uma flor venenosa” e não o deixava lá ir sem se certificar que levava no bolso um saquinho que ela tinha preparado com amuletos contra qualquer coisa, cheirava a uma erva que ela dizia ser “arruda”. Ele deitava o saco fora, mas aparecia sempre outro no seu bolso quando ia dar as explicações.
A Sargenta começou por se sentar na mesma sala com a sua caixa de costura, mas ele teve que lhe pedir para sair, a mulher era absolutamente incapaz de se manter calada. Vinha espreitar de vez em quando, perguntava se o chá estava frio ou outra coisa qualquer, devia saber que a filha tinha as suas manhas... e a mesa redonda tinha uma camilha até ao chão. A rapariga tímida também tinha pés, e joelhos, e mãos, e todas as outras partes anatómicas nos sítios e proporções certos, que ela usava como instrumentos experimentais de sedução. Era esperta, embora tivesse a cabeça atulhada de trapalhadas e histórias de romances de cordel. Sentia-se reprimida pela mãe e pelas tias e, muito mais do que em explicações de matemática, estava interessada em explorações de anatomia comparada...
Pareceu-lhe que a Sargenta deixava correr, apesar das espreitadelas inopinadas, ou talvez não. Ele não estava preparado para essas subtilezas, mas a rapariga parecia saber o que fazer e quando não fazer. No tempo que sobrou, e nem foi assim tanto, foi preciso acordá-la para a realidade duma ciência exacta, explicar os exercícios, obrigá-la a trabalhar, embora por vezes... acordada sim, atenta ao que ele dizia? Muito menos. Veio Junho e a rapariga deve ter aprendido umas coisas, pelo menos da matéria escolar, porque lá passou os exames.
Acabaram-se as explicações quando ele já não se importava nada de lá ir a casa. Ainda trocaram uns bilhetinhos nas caixas do correio para encontros furtivos e rápidos no Parque do Bonfim, mas depois dos fins de tarde excitantes a que se tinham habituado, os bancos do jardim depressa perderam o interesse. A avó decerto percebeu o que se passava e comentou que a Sargenta guardava a filha como um dragão, não a deixava ir a nenhum dos lugares onde é normal encontrarem-se os rapazes e raparigas daquela idade. Esperava certamente que se materializasse do nada um noivo ideal, com todas as qualidades requeridas para a levar no seu cavalo branco...
Entretanto a criada deu em defumá-lo enquanto tomava o pequeno almoço antes de sair para o Liceu, apanhando-o de surpresa com uma espécie de incensório, um cheiro pegajoso. Na primeira aula, uma professora perguntou-lhe uma vez se ele vinha da missa da manhã, que cheirava a incenso, para grande gozo dos colegas. Ele irritava-se, um dia atirou o incensório pela janela fora, a avó ria-se e ia perguntando se já tinha arranjado uma namorada. Ele nunca respondia, mas por grande acaso ou não, quando começou uma relação mais ou menos desse género acabaram-se de súbito as defumações. As mulheres mais velhas lêem nos rapazes como em livros abertos.
Até acabar o Liceu continuou a encontrar a filha da sargenta por vezes na cidade, muito  raramente, ou mais frequentemente via-a passar aos Domingos a caminho da missa, sempre acompanhada da mãe ou das tias, paravam para cumprimentar ou diziam adeus de longe, ela fazia-lhe um sorriso entre o atrevido e o triste, enquanto a mãe falava como uma metralhadora ou apressava o passo.
Muitos anos mais tarde, ele soube por acaso que a rapariga continuava solteira, não lhe souberam dar mais detalhes. Certamente o “prince charmant” nunca chegou. Que sentimento de melancolia, que tristeza e sobretudo “quel gâchis”...
JSR

Wednesday, 8 December 2010

9 - A Cidade Negra

Celtic Mysteries
As memórias de Setúbal comportam períodos de adaptação difícil à realidade social, de rejeição das tradições conformistas e de grandes provações pessoais. Primeiro, voltar a um país e a uma cidade, que por acaso são aqueles onde nasceu, encontrar ruas e ideias estreitas, após ter corrido os vastos espaços de metade do mundo, foi um choque profundo. Depois, em sucessão, apanhou a chamada “gripe asiática” que lhe deixou consequências para o resto da vida e no ano seguinte faleceu a mãe duma morte lenta e dolorosa.
Adaptações
De cada vez que partia dum lugar, deixava para trás os companheiros de estudos e de jogos, os cães, um ambiente físico onde se sentia integrado e a que se tinha afeiçoado. Chegar, representava a curiosidade da descoberta, mas também as negociações das diferenças e da integração, com afinidades felizes, indiferenças estudadas e mesmo repulsões violentas. No Liceu esperava-o o encontro com o tribalismo. Havia os grupos que vinham das mesmas escolas primárias e os que chegavam das mesmas terras vindos no comboio. Os raros que vinham de outras origens não tinham nada em comum consigo, nem eram aliados naturais. O melting pot levava tempo a funcionar. Com alguma paciência e muitas disputas, lá se foram estabelecendo aproximações e afinidades.
Óculos
Veio logo depois a barreira de não conseguir ler o que se escrevia no quadro, do lugar que lhe tinha sido atribuído no fundo da sala. Problema grave, os professores passavam o tempo a escrever coisas para copiar e exercícios para fazer. Mais uma ida ao oftalmologista atenuou o problema sem o resolver. Uma queda em Lourenço Marques tinha-lhe deixado alguma coisa a pressionar o nervo óptico, diagnóstico na altura dum oftalmologista alemão. Recordação das breves veleidades hípicas e de querer saltar mais longe do que as suas botas. Mas o problema manteve-se e nunca ninguém, nem os exames mais avançados, encontraram razão para as suas limitações visuais, por vezes penosas e frustrantes, sempre limitativas.
Multiplicações
A casa onde vivia dava para três ruas, as pessoas, as actividades e as lojas que a rodeavam eram um terreno de exploração curiosa. Percorrer a cidade no seu comprimento, mais ou menos em paralelo ao rio, era encontrar ruas sempre cheias de gente, homens com instrumentos de trabalho, mulheres embiocadas com alcofas, burros com bilhas de leite, carroças de legumes, carteiros de bicicleta, padeiros com cestos de pão, marçanos com caixotes de cartuchos de papel pardo, peixeiras com canastras à cabeça, amoladores de facas a tocar a flauta de Pan, vendedores diversos com pregões ininteligíveis. Por todo o lado havia também os comércios diversos, merceeiros, padeiros, peixarias, lojas de legumes, além das drogarias, capelistas, talhos, barbeiros, ferreiros, carpinteiros e tudo o resto. Depois havia o mercado, onde mais uma vez se encontrava de tudo. De espaço a espaço, encontrava largos e praças, geralmente com igrejas, maiores ou menores, e onde também se concentravam os cafés, as tabernas, os restaurantes, os hotéis. 
O mar
As docas de pesca, com os barcos, os armazéns, as profissões de construção e reparação naval, a lota, eram outro mundo fascinante. A caminho de Albarquel estavam os estaleiros navais, onde continuavam a ser construídos em madeira os barcos de pesca e alguns de recreio, que se encontravam depois nas docas dos Pescadores e do Clube Naval.
A gripe asiática
Começou como uma gripe normal. Preso no quarto com febre, dia após dia, transcrevia num gráfico a evolução das medidas vitais de que o médico precisava para o tratar: temperatura, pulsação, tensão, resultados das análises. Depois lia o jornal do dia, os livros escolares e todos os outros que lhe vinham à mão. Nunca mais esqueceu a “História dos Portugueses no Mar das Índias”, as “Memórias do Tempo de Filipe IV” e do seu herói, D. Francisco de Quevedo, entre muitos outros. Muito mais interessante do que a “água chalada” dos Três Mosqueteiros e outras traduções. No meio disto tudo veio à rede uma História da Filosofia e um compêndio de antropologia sobre as "raças" humanas. Finalmente, decidiu-se a ler a chamada Bíblia das Escolas, o Novo Testamento, depois o Velho Testamento. Estas leituras alarmaram a família tanto quanto a gripe, que o fez ficar durante quase três meses a tentar sobreviver. Não se pode dizer que a sua fé nas crenças familiares tenha suportado bem aquele ataque de sabedoria febril... 
          Por essa altura a sua madrinha teve um filho, a que deu o seu nome, possivelmente em sinal de fé na sua sobrevivência, ou pelo menos na sobrevivência da sua memória, o que o deixou profundamente sensibilizado. Por outro lado, registou-o como padrinho de baptismo sem a sua presença, pois estava retido em casa, o que já lhe deixou preocupações com a mais que provável incapacidade em corresponder às obrigações religiosas correspondentes. 
Mistérios
Quando finalmente se safou com vida, assistiu à agonia da mãe cuja vida desaparecia progressivamente. Acompanhava-a frequentemente ao Instituto de Oncologia em Lisboa. Depois dos tratamentos, ela tinha que repousar em casa duma tia que morava em Benfica. Ele pretendia fazer trabalhos escolares de que não precisava, para não ter que falar com mais ninguém. Até que a mãe deixou de poder sair e a morfina fazia-a desaparecer para longe da realidade. Nos períodos conscientes, cada vez mais espaçados, falava-lhe do passado, do presente e também do futuro, como se este fizesse parte duma história que conhecia, mas na qual já não poderiam participar juntos. Duma forma não linear, por extractos, não aconselhava nem advertia, simplesmente dizia ou comentava sem julgar, factos, pessoas, situações, acontecimentos, estados de espírito. Como se tudo estivesse na mesma dimensão, como se todo o continuum do tempo fosse no presente.
Apesar de se estar a tornar inexoravelmente ateu, de tentar avaliar a situação duma forma desesperadamente racional, de saber do aumento progressivo das doses de morfina, as palavras da mãe durante os meses de agonia penetravam-lhe a mente como as dum oráculo. Depois dela falecer, isso continuou durante mais de um ano. Todos os Domingos de manhã, enquanto o resto da família estava na missa, ele passava pelo mercado a comprar flores e ia visitá-la ao cemitério, onde ela continuava a falar-lhe dentro da cabeça. Desde então, nos momentos de crise ou em tempos de decisão, apercebe-se que involuntariamente avalia os factores em causa para verificar se correspondem à espécie de “conhecimento” que lhe ficou na memória. Uma intuição, que confirma ou infirma a lógica da razão, e “obriga” a encontrar o caminho de coincidência entre as duas.
Opções
Após este período negro, teve que reavaliar as opções para a vida futura. O cardiologista em Lisboa encontrara-lhe “um sopro no coração” e recomendava evitar esforços físicos violentos. Aconselhava uma carreira tranquila na magistratura, na banca ou na diplomacia. Mas ele tinha outras ideias e não queria aceitar quaisquer limitações. Não queria que uma válvula deficiente no coração “would define him”, lhe definisse a vida, por isso nunca diria nada a ninguém, ignoraria a sua existência excepto nas visitas regulares aos médicos e nas “reparações” que tivesse que fazer, para que tudo fosse ou parecesse normal, igual a toda a gente. Como resignar-se a ficar confinado numa situação que lhe cortava as asas?
JSR 

Friday, 26 November 2010

8 - A Cidade Branca

Praça do Bocage
Um dia, ao voltar do Liceu de Setúbal, o jovem Albatroz encontrou uma enorme vala aberta na rua em frente da sua casa. Os operários tinham posto umas tábuas largas sobre a vala em frente à porta para se poder entrar e sair. Daí também se podia observar os trabalhos e fazer perguntas. Estavam a melhorar o incipiente sistema de drenagem das águas pluviais. Podiam-se ver diferentes níveis de estratos arqueológicos, com as pedras e cacos correspondentes. Havia montinhos de moedas nas bordas do buraco, juntamente com algumas ânforas inteiras e outras partidas. Muitas moedas portuguesas e romanas, algumas moedas com letras gregas e outras desconhecidas. As ânforas de vários tamanhos continham substancias pastosas que cheiravam a peixe, sal, azeite e qualquer coisa ácida.
Nada disto era original, o museu da cidade estava cheio de objectos semelhantes, um dos seus amigos e companheiro de tertúlia queria ser arqueólogo e levava-o lá sempre que tinha oportunidade. Mas agora era em frente à sua casa. Negociou com os operários um punhado de moedas em troca dos poucos escudos que tinha no bolso, antes que levassem tudo quando se foram embora ao fim do dia. Foi então buscar uma lanterna, pois apesar de ser ainda dia claro a fossa era profunda. Havia estratos com cinzas, estratos de construções, estratos de areia e na zona mais baixa havia um muro de pedras com duas filas de caracteres gravados numa delas. Trepou de novo o andaime para ir buscar um papel e lápis, como proto-explorador não mostrava grande previdência, voltou a descer e copiou os caracteres.
O Povo do Sol Poente
No dia seguinte foi pedir ao professor de história e geografia, já idoso e dado a ausências, para lhe explicar o significado da inscrição. Ele olhou para aquilo com óculos e sem óculos, com o nariz encostado ao papel e finalmente decretou: “Não percebo isto, os sinais têm qualquer coisa de familiar, mas não os compreendo. Copiaste bem?” Sim, tinha copiado tão exactamente quanto possível. “Levo o papel para casa para estudar o assunto”. O tempo passou, até que um dia o António, filho dele e seu colega, lhe disse que o pai estava na pista de qualquer coisa. Mais tempo ainda e entretanto a vala foi fechada e o pavimento refeito, embora não logo, andou meses portuguesmente a passar em cima das tábuas.
Finalmente, um dia o professor chamou-o: “Mandei o papel a um colega, lente em Coimbra, a inscrição é muito antiga e ele gostava de vir cá observa-la”. Pois... como se ele não lhe tivesse dito logo que estava no fundo duma vala de trabalhos municipais, lentos sempre, mas nem sempre eternos... E acrescentou: “Por semelhanças com outros alfabetos, achamos que o significado pode ser este: Somos o povo do Sol poente, senhores do grande Mar. Poente? Não faz sentido”. Em tempo normal, a descoberta da inscrição e o seu possível significado teriam dado tema para discussões na tertúlia, artigos nas páginas semanais que escreviam para os jornais da cidade e conferências. Mas essa altura já não era um tempo normal, teve que sair da circulação por algum tempo.
Recalcitrantes e demonstrativos
Ao voltar à cidade branca onde nasceu, após ter partido na infância, não compreendeu logo a forma saudosa como os pais se referiam a Setúbal durante as suas peregrinações. Era uma cidade pequena, embora no Liceu aprendesse que era a terceira maior do país, com largos com muita gente e ruas estreitas. Apenas a avenida Luísa Todi se podia comparar com as grandes artérias de outras cidades, e a essa a avó referia-se sempre como “a praia”. Tinha sido efectivamente a linha da costa antes dos trabalhos de aterro e construção do porto e docas.
As pessoas de família, amigos e simples conhecidos eram duma proximidade que se podia tornar asfixiante para quem era esquivo por natureza. Nas ruas encontrava-se gente pobre, trabalhadora e sobretudo recalcitrante. Da sua empatia com esta última qualidade, depressa se apercebeu de como a cidade tinha um espírito original, uma alma própria, indomável.
Entretanto nasceu a sua segunda irmã, prematura de sete meses, só com grandes cuidados sobreviveu. Uma boneca pequena, guardada ciosamente pela outra irmã. Nos primeiros tempos, só podia olhar sem tocar. Uns meses depois era uma criança normal. Tempos estranhos.
O Carreiro das falésias
A avó materna vivia em Setúbal enquanto namorou com o avô, que vinha de  Sesimbra vê-la uma vez por semana. Contavam que ele fazia o caminho de barco ou a cavalo, e até mesmo a pé pela linha da costa, atravessando as praias na baixa-mar e os carreiros das falésias da Arrábida. Era o período conturbado do regicídio e da implantação da república. As cartas que o avô escrevia começaram por ser endereçadas “À Excellentíssima Menina...” e continuaram com “À Cidadã...”. Fez uma vez o caminho pedestre que o avô lhe ensinou, com alguns amigos com quem acampava nas férias. Partiram alegremente de Sesimbra de manhã cedo e chegaram a Setúbal ao fim de muitas horas, estafados e convencidos que o avô era um atleta e que a avó devia ter merecido tanto esforço.
Somos todos gregos
O avô materno era um republicano escaldado pela incompetência, pela desordem e pela corrupção dos dirigentes do regime em Lisboa. É dele a frase “este é um país beato e paspalhão”. Dizia que nunca haveria uma verdadeira república até que todo o povo tivesse ido à escola. Ironizava com a devoção religiosa da avó, dizendo que ele não precisava da intercessão de padres para ir direito ao céu. Ao que a avó respondia: “Sim, ao céu dos pardais, que é a barriga dos gatos”... Contava-lhe histórias sobre a origem da família, dos povos que vieram do mar para criar feitorias, lugares de trocas comerciais que se tornavam centros difusores de civilização. Eram navegadores e mercadores, armadores e pescadores. Gostava de conversar com ele, mas não atentava realmente na informação que ele lhe transmitia até muito mais tarde, quando se arrependeu de não se ter interessado mais pelo assunto enquanto ele foi vivo.
Anos depois e em dois continentes, os Embaixadores e representantes gregos junto das organizações internacionais onde trabalhou, fizeram-lhe a mesma pergunta, se sabia que o seu nome de família tinha origem grega. O que ele sabia por experiência é que os gregos pretendem sempre que estiveram primeiro em todo o lado, que estiveram na origem de todas as coisas. Mas como “si non è vero è ben trovato” lá foi ouvindo as histórias sobre a designação dos comandantes das galeras da diáspora helénica clássica, segundo uns, sobre o nome dado aos enviados do Basileus do Império Romano do Oriente, segundo outros. A única história documentada é aquela dum outro povo que também chegou primeiro a todo o lado... e onde aparecem navegadores com o seu nome nos cantos mais afastados da Terra. Como por exemplo, quando o filho estudava na Califórnia, foi contactado por quem estava a recuperar o conteúdo do galeão San Augustin, naufragado na baía de S. Francisco no sec. XVI, e que era comandado pelo “Capitan y Piloto Mayor” com o seu nome, que foi quem baptizou essa baía, onde se instalou primeiro a Missão e depois a cidade com o mesmo nome. Assim como baptizou muitos outros lugares daquela costa. Terá originalmente dado mesmo o nome à própria Califórnia, que é como se chama uma praia de Sesimbra desde tempos imemoriais. Lembrou-se então das conversas com o avô.
O carro do Padre
Voltando a Setúbal, a cidade era modesta, mas tinha uma classe média que sabia o que queria e uma população em geral sempre contra o regime que governasse em Lisboa, uma proximidade incómoda. Além disso, eram convictamente anti-clericais e de temperamento truculento. Não chegava o Bocage e outros tais, até a natureza parecia colaborar. Durante um tremor de terra, uma enorme cruz de ferro despenhou-se do alto da Igreja de S. Julião sobre o Volkswagen preto do padre, estacionado em frente... Durante dias houve peregrinações de incréus maldizentes, que abandonaram cafés e tabernas para se reunirem diante do carro esborrachado, num concurso de dichotes satíricos.
Chegou a ter pena do Padre, que era boa pessoa e professor de Moral no Liceu, só por aturar os alunos merecia melhor tratamento do seu Senhor omnipotente. Após estarem resolvidos os problemas mais prementes, como a chaminé da sua própria casa, que ruiu, os bombeiros lá levaram o carro. Depois as beatas, perdão... os paroquianos quotizaram-se e compraram-lhe outro carro.
O Maneta
Poucas crianças eram escolarizadas, mas as que o eram seguiam um caminho pragmático. Havia menos de mil alunos no Liceu, na prática reservado a quem tencionava prosseguir estudos superiores, mas entre dois a três mil na Escola Comercial e Industrial, de onde saíam com uma das profissões necessárias às empresas e fábricas da região.
Muitas vezes, depois das aulas, ficava a jogar futebol num terreno onde seria construído o estádio do Vitória. Um dia o jogo foi interrompido quando foi avistado o “bando do maneta”. A maioria pegou nas pastas escolares e foi-se embora. Ele tinha acabado de chegar à cidade e não percebeu logo o que se passava. Viu um bando de rapazes maltrapilhos que avançavam como qualquer bando de primatas, com uma atitude entre a mischievousness dos saguis da praia da Polana e a confiança cautelosa dos babuínos na Gorongosa.
Vinham sem pressa e estranhou alguma hesitação, até que se apercebeu que junto às pastas que serviam de postes da baliza tinham ficado três dos seus novos colegas, com caras de poucos amigos. Logo aqueles que nunca perdiam a oportunidade duma boa cena de pancadaria (mais tarde fizeram carreiras nas forças armadas, pura coincidência, claro...). O “maneta” aproximou-se e perguntou se tinham alguma coisa para comer. O jovem Albatroz olhou para o bando, estavam magros e macilentos. O “maneta” tinha um braço deformado e um ar ausente. Abriu a pasta e deu-lhe a sandes que tinha trazido de casa para o lanche. O “maneta” partiu-a ao meio, deu metade aos seus capangas e devorou a outra metade. Olhou para os colegas do Albatroz, que não mexeram uma pestana, depois fez meia volta e foram-se embora.
A cena repetiu-se algumas vezes. Os novos colegas passaram também a dar-lhes o lanche de boa vontade. A pouco e pouco conseguiram conversar. No bando ninguém ia à escola. Os pais eram pescadores ou trabalhadores ocasionais e algumas mães trabalhavam nas fábricas de conservas ou nos arrozais do Sado. Nos períodos em que os pais não estavam em casa ou estavam desempregados, o “maneta”, irmãos e vizinhos desenrascavam-se como podiam. Apanhavam laranjas nos pomares, peixe que caía na descarga dos barcos e roubavam o que calhava para sobreviver. Uma carcaça com bife, fiambre ou queijo, como ele e os seus colegas levavam de casa, era coisa onde o bando raramente metia o dente.
As meninas da caridade
Quando contou estes acontecimentos a uma das novas colegas, foi imediatamente recrutado pelas meninas das obras de caridade de S. Vicente, que lhe deram um curso acelerado de realismo social. Uma vez por semana, ajudava a carregar os sacos de géneros e roupas que elas distribuíam pelos ocupantes do antigo convento do Viso e outras zonas de casebres e barracas nos arredores da cidade. Os primeiros contactos com a realidade social do seu país foram educativos e decepcionantes. Muitos dos contactos seguintes também.
Como motivar os alunos
Foi recentemente convidado para participar na cerimónia de recordação dum antigo colega de Liceu, organizada pelos filhos dos seus vários casamentos. Biólogo, investigador da Gulbenkian, doutorado por Harvard, uma personalidade bocageana, poeta, irreverente, inquieto, o seu primeiro amigo quando entrou no Liceu.
Apercebeu-se, quando começaram as aulas, que lhe disputava o lugar de melhor aluno. Não logo, porque nunca tinha tido competição numa estrutura organizada. Mas depressa os dois se aliaram numa empresa muito mais excitante, ver quem conseguia colocar os professores em dificuldades, fazendo perguntas aparentemente inocentes mas às quais eles não soubessem responder. “Não sei” valia 1 ponto, uma resposta errada 5 pontos, a glória. Toda a turma fazia apostas. Procuravam pequenos factos nas diferentes disciplinas como pesquisadores de ouro, frequentavam mesmo a Biblioteca Municipal, fonte preciosa de informação, até encontrarem a pepita recôndita. Depois de a encontrar, é claro, passavam e resto da tarde a “pesquisar” a colecção de Cavaleiros Andantes...    
Esta competição didactico-desportiva não acabou nada bem. Foram chamados ao Reitor, com os respectivos Encarregados de Educação, por manifesta falta de respeito pelos professores. De nada valeram os protestos de legítima curiosidade intelectual. Com o apurado sentido de psicologia educacional existente na época, todos os adultos concordaram que caso repetissem as graças, um par de tabefes seria um tratamento mais eficaz do que uns dias de suspensão.
A rua da Biblioteca
Chegar à Biblioteca era outra aventura. A porta principal do edifício dá para a avenida Luísa Todi, mas o caminho mais curto para eles passava na lateral, pela rua dos Navegantes, na altura chamada rua do João Galo, a rua da prostituição. As raparigas metiam-se com eles, a meio da rua geralmente aparecia um polícia que os interpelava: “O que é que vocês fazem aqui, rapazes, vocês ainda não têm idade para isto!”, e eles, com ar inocente: “Mas, senhor guarda, nós vamos à Biblioteca...”.
“O que é a vida sem mudança?”
Há alguns anos, tinha encontrado esse antigo colega num congresso, por puro acaso. Trocaram notícias e admirou-se quando soube que ele já ia no seu quinto ou sexto casamento. Ele próprio não sabia bem como contar, pois com algumas das suas “companheiras” tinham passado pelo Registo Civil, com  outras não, tinha filhos de umas ou outras, independentemente dos papéis. À sua surpresa, o amigo respondeu: “ Olha, pá, tu mudas de país e de trabalho, eu mudo de amores. O que é a vida sem mudança?”.
Mais recentemente, tinham-se encontrado pela última vez num almoço de aniversário da turma no Liceu. Interessante, colegas que não via desde então, alguns poderia reconhecê-los na rua e lembrava-se dos nomes completos. E soube coisas de que nunca se tinha apercebido na época, como os sacrifícios que faziam “os alunos do comboio”, que vinham do Barreiro, do Montijo, das localidades ao longo da linha, dizia-lhe uma colega que por vezes chegava tão gelada que encostava as mãos à parede para as aquecer.
“Ói, mano!”
Após a cerimónia, ao pôr a conversa em dia com outros antigos colegas, mais uma vez notou que embora a cidade estivesse urbanisticamente irreconhecível, continuava a produzir personalidades excêntricas, first class oddballs. Deve ser genético, ou ambiental, ou da cultura de radicalismo social recalcitrante.
A história mais recente é a do Henrique, que teve a carreira política mais curta que se conhece. Reformou-se da Marinha e em 2009 um partido político convenceu-o a ser candidato às eleições legislativas. Tudo correu bem, até que acompanhou o cabeça de lista numa visita ao bairro social da Bela Vista. Ao entrarem num café, aproximou-se um habitante local que bamboleou: “Ói, mano!”. O Henrique olhou-o de cima a baixo e disparou: “Ói, mano!? Ouve lá, rapaz, que falta de respeito é essa? Manos são os outros filhos da mesma puta que te pariu!”. Deu meia volta e regressou à sua chafarica habitual a contar aos amigos que, definitivamente, a política não é para ele.
JSR

Thursday, 18 November 2010

7 - As Palhotas de Pedra

Casas de Pedra
A expressão “palhotas de pedra” tem uma razão e uma história. Voltando a Portugal nos anos cinquenta do século passado o jovem Albatroz teve o choque de encontrar gente descalça nas ruas das cidades, grupos com crianças macilentas a fazer números de circo pelas esquinas e a pedir às portas, mulheres de preto embiocadas com lenços apertados debaixo do queixo como as muçulmanas. Até os criados eram brancos, um espanto que só compreende quem cresceu nas colónias africanas e entrepostos asiáticos. Um país pobre e atrasado, diferente do que imaginava como sendo a “Metrópole”.
A segunda grande guerra
O mundo recuperava da segunda grande guerra a velocidades diferentes e os países que mais tinham sofrido eram os que recuperavam mais depressa. A América tinha transformado a indústria de guerra em força de inovação, produção e exportação, e agora inundava o mundo com as suas empresas, os seus produtos e os seus turistas. Portugal era uma ilha, rodeada de dois lados por mar e dos outros dois por um muro de desconfiança. As distâncias tinham outro sentido, uma deslocação que nas colónias era perto na Europa era longe, uma questão de espaço mental. Não que as estradas fossem piores, nem melhores, mas estavam cheias de povoações, de gente, de carroças, de animais, como na Índia.
Era ainda pior nas terras do interior. Ao visitar os avós paternos na Beira conheceu cidades e aldeias duma pobreza insidiosa, pessoas a caminhar na neve sem agasalho nem sapatos, a viver em casas de pedras mal aparelhadas juntamente com os animais. Um dia ao jantar comentou que ali os brancos pobres viviam pior do que os pretos, até as palhotas eram de pedra. O pai e o avô olharam-no um momento, pouco habituados a críticas desta ordem. Sentiu que a caminho vinha uma catilinária sobre pensar duas vezes antes de falar. Já não se lembrava bem do avô nem dos seus olhos verdes, fixos, mas foi ele que o tirou do aperto: “Aqui muitos brancos vivem pior do que os pretos, é verdade, mas nem os deixam viver melhor nem eles sabem como”. Ponto final. Obviamente não era assunto para discutir à mesa. Da avó paterna, que rapidamente mudou de assunto, restam-lhe apenas na memória os cabelos brancos, a bondade nos grandes olhos azuis, as expressões de tristeza de o ver tão poucas vezes.
A guerra civil de Espanha
Se as raízes da família se encontravam nas terras altas portuguesas e na meseta castelhana, poucos restavam para contar as histórias dos que ficavam e dos que partiam. Constante era a insatisfação e compreendia-se porquê. Terras de beleza rude e fertilidade ingrata, eram pontos de largada para os homens de ambição e temeridade necessárias para a expansão colonial e outras aventuras. Em tempos mais recentes, os da idade do avô tinham-se sentido obrigados a intervir pelas duas partes em conflito na guerra civil de Espanha e poucos tinham voltado. Dos que voltaram, todos detestavam Franco, uns por ele ser fascista, outros porque ter usurpado o trono, uns e outros porque ele tinha pensado aproveitar a expansão alemã durante a segunda grande guerra para invadir Portugal. Pontos de honra fundamentais, numa família para quem a fronteira tinha sido sempre uma protecção... e um património.
Ao visitar a região de origem paterna, além dos avós e uns quantos parentes e dependentes, a maioria dos presentes estava de passagem. Por isso, depois do jantar contavam-se histórias e memórias para nostalgia dos mais velhos e edificação dos mais novos. De pouco se lembra, excepto do insólito de ouvir contar aos mais velhos episódios acerca da geração dos pais quando tinham a sua idade, aqueles mesmo que ralhavam quando se faziam coisas semelhantes... Mesmo assim, com os primos de idade próxima, estavam sempre ansiosos pela oportunidade de se poderem escapulir pela calada da noite.
Ao pai e a um tio um ano mais novo chamavam-lhes em miúdos “a parelha da cabeça vermelha”, segundo as tias por andarem sempre juntos, serem ruivos e endiabrados. Cada vez que contavam as histórias das suas tropelias, as tias acrescentavam: ”Pois, ruços de mau pelo, má casta e mau cabelo”. Quando lhes perguntou o que isso significava, disseram que era só um ditado popular. Só mais tarde se apercebeu da história que se escondia por detrás deste ditado. Para os mais novos, ruços eram os Russos, então comunistas, má gente.  Para os mais velhos, "ruços" eram todos os que tinham o cabelo claro e que uma população maioritariamente morena e de cabelo preto olhava com alguma prevenção. Mas a verdadeira origem do ditado encontrou-a mais tarde. Russos vem de “russ”, o grito de guerra dos piratas vikings que assolaram as costas da Europa na alta Idade Média, assim como os rios da Europa Oriental onde se estabeleceram e onde acabaram por dar o nome ao país.
As festas da raia
Durante o Verão as povoações organizavam festas e largadas de touros, em que era de bom tom ir buscar os animais a cavalo, apenas para fazer número, a regra era deixar as iniciativas a quem sabia o que estava a fazer. Nas praças das aldeias, fechadas com carros de bois, era preciso correr a tocar os cornos dos bich0s e tentar fugir a tempo, mas inevitavelmente acabava-se por levar umas marradas, de preferência aparatosas sem serem incapacitantes. Para quem estava de visita, se tudo corresse bem acabava por ser convidado para pegar em grupo no forcão, uma armação de troncos que era preferível manter virada contra o animal. O que nem sempre acontecia, porque nem o touro é tão estúpido como parece nem os homens são tão habilidosos como pretendem.
Nas festas nocturnas que se seguiam, as meninas mais educadas diziam achar aquilo tudo uma barbaridade, escolhiam discos de cantores engagés, vedetas estrangeiras, bandas da moda e organizavam saraus literários. Saber compor umas quadras ou recitar uns sonetos na altura própria eram habilidades apreciadas, que podiam conseguir uma atenção personalizada às mazelas sofridas durante a convivência diurna com os jogos pagãos da plebe. Como explicavam os latinistas, pagãos vem de paganus, o camponês romano relutante em abandonar os deuses tutelares diante da expansão do cristianismo, ou seja neste caso, tutti quanti...  
Julgava na altura o jovem Albatroz que era imperativo interessar-se pela História e pelas histórias locais, compreender as raízes familiares assim como as tradições e hábitos que lhe eram desconhecidos. Com o recuo dos anos apercebeu-se que embora o esforço fosse genuíno, francamente nunca se sentira integrado numa sociedade que era, a quase todos os títulos, feudal.
Das casas, quintas, campos, florestas e barrocais, recorda com alguma nostalgia apenas uma propriedade chamada “Fonte dos Lares”, onde havia um cabeço de carvalhos com a água a correr da fonte para um grande tanque de pedra.  Recorda-a sobretudo como lugar isolado de alguns encontros românticos e clandestinos, nas últimas semanas de férias que passou na Beira antes de entrar na faculdade. Mais tarde os avós foram morrer em casa das tias no Porto e a memória das raízes beiroas da família paterna desvaneceu-se.
Mudanças paradas
Passados estes anos todos, as coisas mudaram o que tinham que mudar. Os camponeses e outros trabalhadores não conseguiam viver melhor aqui e por isso emigraram para as cidades da costa e para outros países. Mas ao principio viveram pior, nos bidonvilles dos arredores das cidades de acolhimento relutante. Entretanto alguns foram explorados e mesmo roubados por angariadores de trabalho escravo, por funcionários que lhes desviaram as poupanças em proveito próprio, por construtores de coelheiras sem isolamento e sem qualidade, pelo Estado que lhes desvalorizou o seu dinheiro. Agora deixam-nos viver melhor, mas ainda não aprenderam a viver bem.
Em grande parte, muitos portugueses continuam a não sabem gerir o seu próprio destino. Endividam-se excessivamente para construir, comprar ou melhorar as velhas casas sem conforto, para adquirir carros e outros bens de consumo que nem sempre têm a capacidade de pagar. Depois passam a vida enfeudados  aos credores como os antigos servos da gleba aos senhores da terra. Outros continuam a viver nos lugares de origem como se o tempo tivesse parado. Para além do progresso material inegável dos últimos anos, embora ainda insuficiente, sobrevive a mentalidade tacanha duma teia corrupta de cumplicidades. Nem os deuses, antigos ou novos, têm dó de quem cai nas malhas da camorra dos caciques políticos, dos seus acólitos alapados nos centros de decisão e nas empresas, dos banqueiros indispensáveis e dos construtores das novas palhotas de pedra.
JSR

Sunday, 7 November 2010

6 - Os Navios do Império

Companhia Colonial de Navegação - Pátria
Todos os impérios, lato sensu, têm um período heróico de expansão, um tempo de equilíbrio e paz onde a civilização progride e depois acabam por se desmoronar, normalmente mais por degenerescência própria do que por forças exteriores. A última grande guerra europeia trouxe o fim do eurocentrismo mundial. Progressivamente extinguiram-se os respectivos impérios e com eles a época dos paquetes.
As viagens de longo curso nos paquetes coloniais foram provavelmente a última grande época romântica. Os navios das companhias de navegação reflectiam os estereótipos de cada país, os ingleses eram snobs, os franceses mondains, os holandeses kitsch e os portugueses... imitavam os ingleses. Os rapazes da sua idade ("sua" refere-se ao jovem Albatroz, personagem destes escritos), coleccionavam postais dos navios e reconheciam as companhias pelas cores das chaminés. Das portuguesas, a Nacional tinha chaminés pretas e a Colonial amarelo, preto e branco. Dos navios portugueses, lembra-se sobretudo do Pátria e do Império para as carreiras de África.
Por baixo das boas maneiras escondia-se o que faz uma micro-sociedade ociosa: jogos, intrigas e libertinagem. O “sun, sea and sex” original. Os mais novos andavam por todo o lado e observavam tudo. Formavam um grupo segregado dos adultos, nas horas das refeições e nos interesses, mas que se intersectava por vezes nos divertimentos. As passagens do Equador eram uma dessas ocasiões, uma espécie de Carnaval misturado com praxes académicas. O julgamento de Neptuno e os castigos infligidos aos neófitos eram geralmente benignos, mas mais arriscados para essa combinação explosiva que eram as mulheres jovens e que viajavam sós. Ainda hoje não se pode evitar de perguntar se a instituição do casamento por procuração não ultrapassou largamente a expectativa do legislador, na rapidez e na eficácia do povoamento das colónias...
Outra das ocasiões de mistura eram os temporais. A maioria dos adultos enjoava e reuniam-se no grande salão, no centro de gravidade do navio, onde os balanços tinham menor amplitude. Numa passagem pelo Cabo da Boa Esperança, durante dias havia quem não saísse dali, onde eram distribuídas bebidas e sanduíches. Durante algumas horas nem isso, o navio parecia estar numa montanha russa e muita gente estava pálida e apreensiva. Algumas senhoras queriam laranjas para disfarçar o medo e o enjoo. Do seu grupo, dois ou três rapazes faziam carreira entre o salão e a cozinha para as ir buscar.
Duma das vezes, ao voltarem, estava um homenzinho empertigado no meio de salão a perorar: “Faço esta viagem muitas vezes” - dizia ele - “ isto não é nada, ainda não passámos o Cabo das Agulhas, aí é que vão ver...”. O que todos viram logo de seguida foi um balanço maior atirar com o imbecil ao chão, arrastá-lo de rabo contra as janelas de um lado do salão e logo outro balanço enviá-lo em sentido contrário. O primeiro balanço tinha-os feito largar as laranjas para se agarrarem, mas ao verem o homem voltar deslizando pelo chão acompanhado pelas laranjas como numa mesa de bilhar, romperam numa grande galhofa, imediatamente acompanhados pelas gargalhadas dos outros passageiros. Nunca mais viram o experiente navegador.
Na primeira dessas travessias de que se recorda, encontrou o seu “anjo da guarda”, ou assim o acontecimento passou à pequena história. Estava com outro miúdo numa das muitas zonas onde estavam proibidos de ir, a espreitar por uma abertura do convés para a lavandaria. Um balanço súbito fez desprender do gancho a enorme tampa que ia cair sobre eles e decapitá-los. A partir daí há três versões. As amigas da mãe, que vinham com ela à sua procura, juraram que a viram levantar a mão e dizer: “Pára”, e a tampa parou um momento e depois caiu para o outro lado. Dizem que ele afirmou, no meio de toda a comoção, que o “anjo da guarda” tinha segurado a tampa da vigia. O pai, que não estava presente no momento, achou que um contra-balanço oportuno tinha equilibrado a tampa primeiro e depois enviou-a no bom sentido, salvando-lhe a vida. Mas nem o “anjo da guarda” o livrou de ficar de castigo, limitado a um raio de três metros à volta dos pais durante o resto da viagem.
Numa viagem posterior, uma das irmãs, ainda muito pequena, fez a viagem numa trela presa ao cinto da mãe, para evitar percalços do género descrito acima. Não sabe se se deva culpar pelo traumatismo que essa restrição de liberdade possa ter causado à irmã, pois o incidente poderá ter sido a origem remota de ela mais tarde se ter tornado psicóloga e de extrema esquerda...  
Mesmo nos paquetes mais modernos para a época, as viagens podiam durar semanas. Partiam de Lisboa e iam parando nos portos do império, cada qual com as suas idiossincrasias próprias: Funchal, São Tomé, Luanda, Lobito, Cape Town, Lourenço Marques, Beira, Moçambique, Nacala. Alguns portos já tinham cais para grandes navios, noutros ia-se a terra de escaler ou baleeira.
O Funchal era um deslumbramento, um presépio de mil luzes nas chegadas nocturnas. De dia vinham pequenas embarcações vender de tudo junto ao navio. Vinham também miúdos que mergulhavam a apanhar as moedas que lhes atiravam da amurada. Mas só as moedas claras, mais valiosas e que eles viam melhor, com as escuras nem se incomodavam. Em terra descia-se da serra em cestos, sempre demasiado devagar para o seu gosto. Ele bem gritava: “larga, larga!”, mas embora os ilhéus devessem ficar tentados a fazer-lhe a vontade, nunca se dispuseram a deixar estragar um cesto.
Nalguns portos havia enormes guindastes e terminais de caminhos de ferro, em todos havia barulho e confusão. Após dias no mar, os castigos e restrições esquecidos, vinha a curiosidade, a exploração, o desespero dos pais e da tripulação a tentar controlar e por vezes até encontrar, os membros imaturos da tribo. Viajar com crianças e pré-adolescentes é uma provação que só os pais compreendem, que os faz ganhar os pontos necessários para saltar a casa “purgatório” no monopólio cristão, subir na escada da reincarnação para os hindus e budistas, ou simplesmente confirmar a sucessão generacional de “cá se fazem, cá se pagam” para os que não têm o karma dos iluminados.
Da África para o Oriente havia carreiras complementares. Da Europa para o Oriente havia o caminho pelo Canal de Suez. Também já se ia de avião, de escala em escala, penosamente. A expansão das ligações aéreas representou o declínio das autenticidades regionais, o acelerar da homogeneização das sociedades humanas, o triunfo da era tecnológica global e o fim das viagens nos paquetes coloniais.
JSR

Monday, 1 November 2010

5 - Hoje já são todos “Cocuanes”

A maior parte da sua escolaridade foi obra da mãe, devido às frequentes deslocações. Para fazer o exame da instrução primária, necessário para entrar no Liceu, frequentou a Escola João Belo e passou com a nota máxima e um prémio que havia então em Moçambique. Os pais exprimiram a satisfação comedida de quem acha que ele não tinha feito mais do que a sua obrigação. Ele próprio e os amigos não ligaram nenhuma, para além de que precisava duma bicicleta, recebeu a bicicleta como prenda e tudo estava bem no mundo.  A bicicleta era a liberdade de se deslocar com os amigos aos Velhos Colonos ou ao Ferroviário, onde iam jogar hóquei em patins ou passar a tarde na piscina. Com promessas e juras de não se aproximar de carros e machibombos.
Os seus vizinhos e amigos eram mais velhos, quando os conheceu já todos andavam no Liceu Salazar. Nos jogos acompanhava-os bem, mas em certos aspectos de maturidade eles faziam-no avançar mais rápido do que as suas próprias rodas. Como da vez em que na piscina, um deles teve a ideia de atirar um enorme lagarto que tinham acabado de apanhar, por uma janela alta nas traseiras do vestiário das raparigas. Claro que foi o mais novo quem foi destacado para concretizar a malvadez. Os outros esperavam diante das portas de saída, como conjurados em emboscada, ou mais propriamente como focas à beira da água. Atirou o lagarto pelo respiradouro e ao dar a volta a correr foi encontrar as meninas em fuga e em diversos estados de nudez. Os amigos rebolavam-se de riso e de gozo.
“Foste tu, malandro?” constataram elas e atiraram-se para cima dele como jogadoras de rugby. Mas após a confusão, o espírito prático da mente feminina depressa apareceu: “Vais já tirar dali o bicho!”. Levou mais tempo a apanhar o animal e escapou-se mais vezes do que seria razoável. Por vezes o crime compensa... Foi uma revelação constatar que a fúria das meninas, apesar das ameaças e dos gritinhos, foi na realidade uma surpresa excitante para todos. Aprendeu que as declarações de guerra entre os sexos se resolvem depois sem tratados de paz... 
Por essa altura nasceu a primeira das suas duas irmãs. Era interessante observa-la, acompanhar o desenvolvimento, mas não ousou tocar-lhe até ela começar a gatinhar. Demasiado frágil, contrariamente às crias dos outros mamíferos, os humanos nascem sem a capacidade sequer de suportar o peso da própria cabeça. Precisam da atenção de todos os momentos e só adormecem e dão um pouco de sossego enquanto fazem a digestão. Num desses preciosos momentos, a irmã tinha acabado de adormecer e a mãe tinha-se finalmente sentado a ler, ouve-se o barulho duma mota que passava e repassava em frente à casa. Era o meio da tarde, na vivenda da frente estava uma rapariga na varanda, e na rua alguém estava a mostrar as suas habilidades. Mas a mãe perdeu a paciência e de repente levantou-se e fez um gesto como que a afastar uma mosca importuna. No mesmo momento a mota desequilibrou-se e resvalou para um lado, enquanto o cavaleiro do trovão se estatelava para o outro. Silêncio. Após a estupefacção e por causa das dúvidas, ele e os amigos, que tinham chegado entretanto, foram rapidamente ver o que se passava longe de casa...
A propósito da casa da frente, era “a casa da Maria Parida”... A alcunha vinha dum comentário do pai, feito um dia entre dentes, quando voltava com ele para casa.  Era a hora do almoço e a senhora acenou-lhes do jardim dela, onde frequentemente ainda estava de roupão e chinelos... Para o pai, a preguiça, o desmazelo, a desordem, eram pecados mortais para os quais não tinha a menor tolerância. Além disso, tinha a irritação fácil e a língua certeira. Algum dos empregados ouviu o comentário, ou a resposta à pergunta sobre o seu significado, e a alcunha espalhou-se como fogo em tempo de seca, colando-se para sempre à casa e à dona.  
Pouco tempo depois teve que pegar na irmã et pour cause. Tinham dois cães enormes, dois “leões da Rodésia” trazidos ainda em cachorros por amigos Sul-Africanos, acorrentados durante o dia por terem mau temperamento. Como todos os cães, conscientes da sua posição na alcateia. Respeitavam o pai que os castigava à mais pequena desobediência. Adoravam a mãe que por vezes deixava que se deitassem junto à chaise-longue enquanto lia, com as cabeçorras encostadas aos pés dela. Devia ser o ponto alto do dia deles, porque se alguém chegava perto era acolhido com rosnadelas ameaçadoras. Brincavam com ele como quaisquer outros cachorros, só que não era fácil controlar a sua força antes de os fazer correr atrás da bicicleta até se cansarem. O resto do mundo era inimigo a abater.
Quando a irmã chegou a casa vieram cheira-la, com algumas precauções por parte dos  pais. Mas meses mais tarde, um dia ao voltar a casa encontrou os empregados em grande aflição, os pais não estavam e o moleque cuja única tarefa era tomar conta da irmã teve um momento de desatenção e ela foi gatinhando até onde os cães estavam presos. Cada vez que um deles tentava aproximar-se os cães rosnavam. Entretanto a irmã acalmava o incómodo do nascimento dos primeiros dentes mordendo-lhes as orelhas, o que eles suportavam estoicamente. Foi imediatamente busca-la e os cães devem ter suspirado de alívio.
As pessoas  que trabalhavam na casa, “os pretos” em linguagem corrente, ou “os indígenas” na political correctness da época, enriqueciam-lhe a vida duma forma incalculável. Eram pessoas calorosas, alegres, pacientes, maliciosas, perfeitamente solidárias com quem lhes fosse leal. Não contou aos pais (até muito mais tarde) o incidente da irmã e dos cães. Mas também, às perguntas dos pais acerca de qualquer patifaria que ele fizesse, a resposta deles era sempre “num sabe”... O moleque que passeava a irmã no carrinho, vinha duma senzala próxima da Malhangalene. Ensinou-o a procurar as formigas de mel nos formigueiros, escavavam a terra até encontrar os insectos pendurados na dispensa com os abdómenes inchados como pequenos bagos de uva. Deliciosos, apesar das ferroadas. Quando ia a casa trazia-lhe objectos artesanais como arcos e flechas, com os quais ele fazia acidentalmente, não por grande habilidade, estragos entre os pombos da criação dum vizinho do bairro. O homem queixava-se, mas à origem das penas no jardim e aos restos do raro churrasco com os amigos (ajudados pela cozinheira, porque da primeira vez puseram o bicho no fogo com penas e tripas...) a resposta era: “num sabe”.
A cozinheira era uma tombazana folclórica, nas formas generosas, na atitude maternal, no comportamento expansivo. Na época da reprodução das formigas punha alguidares de água debaixo das luzes exteriores da casa, com as formigas de asa que lá caiam durante a noite fazia umas papas torradas de sabor totalmente indescritível, que só os empregados e ele achavam um pitéu, os outros “brancos” não suportavam sequer o cheiro. A uma amiga da mãe que sofria de artrite incapacitante, que lhe deformava os dedos das mãos com dores horrorosas, a cozinheira preparou-lhe uma poção da medicina tradicional, com a condição absoluta de não lhe perguntarem a composição. A senhora melhorou o suficiente para lhe ir oferecendo quantias cada vez maiores para lhe revelar o segredo, antes de voltar a Portugal. Finalmente a cozinheira relented e contou. Da composição faziam parte, entre outras coisas pouco ortodoxas, a quitina de insectos secos e moídos, o mais comum dos quais era a barata doméstica...
Alguns anos depois, a vida profissional levava-o de vez em quando a Johannesburg. Duma das vezes aproveitou para, a partir do Kruger Park, alugar um velho avião Cessna e sobrevoar toda a zona até ao vale do Limpopo. Foi no tempo da guerra civil e Moçambique era uma devastação. Os guerrilheiros matavam os animais para se alimentarem e viam-se as carcaças de elefantes a apodrecer, donde tinham extraído os dentes para o contrabando de marfim. De repente uma rajada de metralhadora, seguida de outras e tiros isolados. O piloto imediatamente mudou de direcção e desceu de altitude até rasar as copas das árvores. Voltaram ao ponto de partida com buracos numa asa e na cauda do avião, com a sorte de nem o piloto, nem o passageiro, nem nada de essencial no aparelho, terem sido atingidos.
Mais alguns anos e Moçambique candidatou-se a membro do FMI e do Banco Mundial. Quando entrou na sala de reuniões onde se encontrava a delegação, a fim de discutir a futura quota do país, viu um dos delegados a olhar alternadamente para ele e a consultar o papel com a agenda, várias vezes e com ar confuso. Olhou também para a lista de participantes e compreendeu a perplexidade. Reconheceu o nome do homem e viu que no seu não constava o segundo nome próprio, pelo qual era conhecido quando ambos tinham sido colegas na Escola João Belo. Small world.
JSR

Monday, 25 October 2010

4 - O Cheiro da Terra

Èdo Messenger
Nunca se esquecem as memórias de África. São outros mundos. Particularmente a África negra, a parte ao Sul do grande deserto, onde teve origem a nossa espécie e que deve tocar nalgum subconsciente atávico. As duas costas, Oriental e Ocidental, são tão diferentes uma da outra como o alvoroço súbito do Sol a nascer do mar dum lado, se opõe ao fatalismo abrupto do Sol a desaparecer do outro lado.  O Albatroz enquanto jovem conheceu melhor, nos primeiros anos da segunda metade do século XX, a parte oriental que vai de Nacala até Cape Town e algum do interland correspondente. Na outra costa visitou superficialmente as cidades dos portos de escala. Voltou mais tarde a África, mas os tempos da inocência tinham passado.
Do Oceano Índico vem o regime das monções, a alternância da seca e das chuvas, a violência dos temporais. As nuvens chegam com a rapidez dum cavalo a galope, frequentemente ao fim do dia, desfazem-se em trovoadas monumentais e chuvadas mornas com fios de água a pique. O pai gostava de observar as trovoadas. Estavam numa das janelas altas da fortaleza de S. Sebastião, na Ilha de Moçambique, a ver o espectáculo dos relâmpagos quase  contínuos e do fogo de artifício dos raios à distância, quando um raio veio atingir inesperadamente uma das pilastras das muralhas. O pai só teve tempo de os atirar para o chão e abrigarem-se parcialmente atrás da parede. A pilastra explodiu em mil lascas de pedra. Algumas foram-se cravar numa perna do pai, apesar da capa de tela encerada, e fizeram-no coxear durante algum tempo.
A Ilha de Moçambique tinha uma cidade de pedra construída pelos portugueses e uma cidade árabe de casebres, bazares e ruas estreitas. A cidade de pedra estava quase em ruínas, uma humidade verde e castanha subia pelas paredes que ainda estavam de pé. Na cidade árabe falava-se swahili e cheirava a especiarias e a peixe podre. Na praia estavam dhows de comércio para cabotagem e longo curso e esquifes estreitos para a pesca.
Na Fortaleza ainda havia enormes armários e mesas de madeira negra, centenários, uma tentação irresistível de explorar o conteúdo. Ao abrir uma gaveta de paramentos deu de caras com uma enorme barata tropical, que avaliou a situação mais rapidamente do que ele e antes que a apanhasse levantou voo por cima da sua cabeça como se fosse um pássaro.
As noites do Índico tinham um negro profundo, povoado de luzes que pareciam estar ao alcance da mão. A mãe mostrava-lhe os planetas e as constelações, via nelas animais, seres mitológicos, conjunções e significados, onde ele só via acaso e confusão. Com duas excepções, reconhecia o Cruzeiro do Sul e era sensível à beleza magnífica do céu negro que o envolvia com um peso avassalador.
Em Nampula ouvia o apitar nocturno dos comboios, um som melancólico que ficou na memória como um omen. Mais impressionante que o riso das hienas ou o rugir dos leões no veldt do interior, no Kruger e na Gorongosa, onde o pai ia caçar com os amigos. Via a vida selvagem sobretudo pelos binóculos, o aproximar dos jeeps punha os animais imediatamente em fuga e à distância. As noites eram passadas por vezes em tendas junto às senzalas. A oferta duma peça de caça era motivo suficiente para batuque, dança, álcool e comezaina. À luz das fogueiras e dos candeeiros a petróleo, tudo aquilo tomava proporções alucinantes.
Das Rodésias e da África do Sul, quase todos os caminhos vinham dar a Nacala, à Beira e a Lourenço Marques. Lourenço Marques era antes de mais um porto magnífico, com tubarões bem visíveis nas águas transparentes à volta dos navios. Em frente, as ilhas de Inhaca e Xefina, para onde se ia de baleeira ou num teco-teco que aterrava na praia. Para esta última ilha foi uma vez arrastado um hipopótamo, após um temporal que provocou as cheias habituais nos rios do continente. Foi preciso abatê-lo, pois estava a devastar as machambas dos indígenas. Quis absolutamente acompanhar o pai no teco-teco e isso valeu-lhe como recordação um cavalo-marinho feito da pele do bicho.
As praias eram sem fim, mas havia sobretudo a do Polana, hotel e esplanada que eram frequente destino dominical. A zona onde se podia nadar tinha uma rede que era suposto proteger da entrada de tubarões, mas cada temporal deixava espaço entre a parte inferior de rede e a areia do fundo. Havia instruções para nadar para terra imediata e calmamente, cada vez que alguém visse uma barbatana dorsal dentro da zona delimitada. Sem espalhafato nem aflição que enviassem aos tubarões a mensagem “lunch”.
Das árvores junto às praias desciam macacos que vinham roubar comida e tudo o resto com o maior descaramento. Enxotar podia-se, tentar apanhar algum trazia o risco duma dentada feroz. A descida para a praia era feita por uma estrada em caracol escavada nas arribas. Um dia, as chuvadas provocaram o aluimento das terras, destruíram a estrada em caracol e soterraram algumas casas e carros junto à praia.
Durante a monção das chuvas podia cair granizo em tamanho e quantidade tais, que partia as vidraças do único grande armazém da cidade e provocava inundações. Aconteceu uma vez em que voltava da escola, acompanhado por uma colega e um "impedido" do pai, que os ia regularmente levar e buscar. Abrigaram-se na primeira vivenda que encontraram no caminho, mas o homem prosseguiu, insistindo que tinha que avisar os pais. Não se sabe como sobreviveu ao que se revelou ser um ciclone devastador, mas quando tudo passou veio calmamente buscá-los.
Pode ser um lugar comum mencionar o cheiro da terra depois da chuva, mas é uma realidade inescapável, que não se compara a nada, que entra na memória para sempre como o cheiro inesquecível de África. 
JSR