![]() |
| Celtic Mysteries |
As memórias de Setúbal comportam períodos de adaptação difícil à realidade social, de rejeição das tradições conformistas e de grandes provações pessoais. Primeiro, voltar a um país e a uma cidade, que por acaso são aqueles onde nasceu, encontrar ruas e ideias estreitas, após ter corrido os vastos espaços de metade do mundo, foi um choque profundo. Depois, em sucessão, apanhou a chamada “gripe asiática” que lhe deixou consequências para o resto da vida e no ano seguinte faleceu a mãe duma morte lenta e dolorosa.
Adaptações
De cada vez que partia dum lugar, deixava para trás os companheiros de estudos e de jogos, os cães, um ambiente físico onde se sentia integrado e a que se tinha afeiçoado. Chegar, representava a curiosidade da descoberta, mas também as negociações das diferenças e da integração, com afinidades felizes, indiferenças estudadas e mesmo repulsões violentas. No Liceu esperava-o o encontro com o tribalismo. Havia os grupos que vinham das mesmas escolas primárias e os que chegavam das mesmas terras vindos no comboio. Os raros que vinham de outras origens não tinham nada em comum consigo, nem eram aliados naturais. O melting pot levava tempo a funcionar. Com alguma paciência e muitas disputas, lá se foram estabelecendo aproximações e afinidades.
Óculos
Veio logo depois a barreira de não conseguir ler o que se escrevia no quadro, do lugar que lhe tinha sido atribuído no fundo da sala. Problema grave, os professores passavam o tempo a escrever coisas para copiar e exercícios para fazer. Mais uma ida ao oftalmologista atenuou o problema sem o resolver. Uma queda em Lourenço Marques tinha-lhe deixado alguma coisa a pressionar o nervo óptico, diagnóstico na altura dum oftalmologista alemão. Recordação das breves veleidades hípicas e de querer saltar mais longe do que as suas botas. Mas o problema manteve-se e nunca ninguém, nem os exames mais avançados, encontraram razão para as suas limitações visuais, por vezes penosas e frustrantes, sempre limitativas.
Multiplicações
A casa onde vivia dava para três ruas, as pessoas, as actividades e as lojas que a rodeavam eram um terreno de exploração curiosa. Percorrer a cidade no seu comprimento, mais ou menos em paralelo ao rio, era encontrar ruas sempre cheias de gente, homens com instrumentos de trabalho, mulheres embiocadas com alcofas, burros com bilhas de leite, carroças de legumes, carteiros de bicicleta, padeiros com cestos de pão, marçanos com caixotes de cartuchos de papel pardo, peixeiras com canastras à cabeça, amoladores de facas a tocar a flauta de Pan, vendedores diversos com pregões ininteligíveis. Por todo o lado havia também os comércios diversos, merceeiros, padeiros, peixarias, lojas de legumes, além das drogarias, capelistas, talhos, barbeiros, ferreiros, carpinteiros e tudo o resto. Depois havia o mercado, onde mais uma vez se encontrava de tudo. De espaço a espaço, encontrava largos e praças, geralmente com igrejas, maiores ou menores, e onde também se concentravam os cafés, as tabernas, os restaurantes, os hotéis.
O mar
As docas de pesca, com os barcos, os armazéns, as profissões de construção e reparação naval, a lota, eram outro mundo fascinante. A caminho de Albarquel estavam os estaleiros navais, onde continuavam a ser construídos em madeira os barcos de pesca e alguns de recreio, que se encontravam depois nas docas dos Pescadores e do Clube Naval.
A gripe asiática
Começou como uma gripe normal. Preso no quarto com febre, dia após dia, transcrevia num gráfico a evolução das medidas vitais de que o médico precisava para o tratar: temperatura, pulsação, tensão, resultados das análises. Depois lia o jornal do dia, os livros escolares e todos os outros que lhe vinham à mão. Nunca mais esqueceu a “História dos Portugueses no Mar das Índias”, as “Memórias do Tempo de Filipe IV” e do seu herói, D. Francisco de Quevedo, entre muitos outros. Muito mais interessante do que a “água chalada” dos Três Mosqueteiros e outras traduções. No meio disto tudo veio à rede uma História da Filosofia e um compêndio de antropologia sobre as "raças" humanas. Finalmente, decidiu-se a ler a chamada Bíblia das Escolas, o Novo Testamento, depois o Velho Testamento. Estas leituras alarmaram a família tanto quanto a gripe, que o fez ficar durante quase três meses a tentar sobreviver. Não se pode dizer que a sua fé nas crenças familiares tenha suportado bem aquele ataque de sabedoria febril...
Por essa altura a sua madrinha teve um filho, a que deu o seu nome, possivelmente em sinal de fé na sua sobrevivência, ou pelo menos na sobrevivência da sua memória, o que o deixou profundamente sensibilizado. Por outro lado, registou-o como padrinho de baptismo sem a sua presença, pois estava retido em casa, o que já lhe deixou preocupações com a mais que provável incapacidade em corresponder às obrigações religiosas correspondentes.
Mistérios
Quando finalmente se safou com vida, assistiu à agonia da mãe cuja vida desaparecia progressivamente. Acompanhava-a frequentemente ao Instituto de Oncologia em Lisboa. Depois dos tratamentos, ela tinha que repousar em casa duma tia que morava em Benfica. Ele pretendia fazer trabalhos escolares de que não precisava, para não ter que falar com mais ninguém. Até que a mãe deixou de poder sair e a morfina fazia-a desaparecer para longe da realidade. Nos períodos conscientes, cada vez mais espaçados, falava-lhe do passado, do presente e também do futuro, como se este fizesse parte duma história que conhecia, mas na qual já não poderiam participar juntos. Duma forma não linear, por extractos, não aconselhava nem advertia, simplesmente dizia ou comentava sem julgar, factos, pessoas, situações, acontecimentos, estados de espírito. Como se tudo estivesse na mesma dimensão, como se todo o continuum do tempo fosse no presente.
Apesar de se estar a tornar inexoravelmente ateu, de tentar avaliar a situação duma forma desesperadamente racional, de saber do aumento progressivo das doses de morfina, as palavras da mãe durante os meses de agonia penetravam-lhe a mente como as dum oráculo. Depois dela falecer, isso continuou durante mais de um ano. Todos os Domingos de manhã, enquanto o resto da família estava na missa, ele passava pelo mercado a comprar flores e ia visitá-la ao cemitério, onde ela continuava a falar-lhe dentro da cabeça. Desde então, nos momentos de crise ou em tempos de decisão, apercebe-se que involuntariamente avalia os factores em causa para verificar se correspondem à espécie de “conhecimento” que lhe ficou na memória. Uma intuição, que confirma ou infirma a lógica da razão, e “obriga” a encontrar o caminho de coincidência entre as duas.
Opções
Após este período negro, teve que reavaliar as opções para a vida futura. O cardiologista em Lisboa encontrara-lhe “um sopro no coração” e recomendava evitar esforços físicos violentos. Aconselhava uma carreira tranquila na magistratura, na banca ou na diplomacia. Mas ele tinha outras ideias e não queria aceitar quaisquer limitações. Não queria que uma válvula deficiente no coração “would define him”, lhe definisse a vida, por isso nunca diria nada a ninguém, ignoraria a sua existência excepto nas visitas regulares aos médicos e nas “reparações” que tivesse que fazer, para que tudo fosse ou parecesse normal, igual a toda a gente. Como resignar-se a ficar confinado numa situação que lhe cortava as asas?
JSR

No comments:
Post a Comment