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| Praça do Bocage |
Um dia, ao voltar do Liceu de Setúbal, o jovem Albatroz encontrou uma enorme vala aberta na rua em frente da sua casa. Os operários tinham posto umas tábuas largas sobre a vala em frente à porta para se poder entrar e sair. Daí também se podia observar os trabalhos e fazer perguntas. Estavam a melhorar o incipiente sistema de drenagem das águas pluviais. Podiam-se ver diferentes níveis de estratos arqueológicos, com as pedras e cacos correspondentes. Havia montinhos de moedas nas bordas do buraco, juntamente com algumas ânforas inteiras e outras partidas. Muitas moedas portuguesas e romanas, algumas moedas com letras gregas e outras desconhecidas. As ânforas de vários tamanhos continham substancias pastosas que cheiravam a peixe, sal, azeite e qualquer coisa ácida.
Nada disto era original, o museu da cidade estava cheio de objectos semelhantes, um dos seus amigos e companheiro de tertúlia queria ser arqueólogo e levava-o lá sempre que tinha oportunidade. Mas agora era em frente à sua casa. Negociou com os operários um punhado de moedas em troca dos poucos escudos que tinha no bolso, antes que levassem tudo quando se foram embora ao fim do dia. Foi então buscar uma lanterna, pois apesar de ser ainda dia claro a fossa era profunda. Havia estratos com cinzas, estratos de construções, estratos de areia e na zona mais baixa havia um muro de pedras com duas filas de caracteres gravados numa delas. Trepou de novo o andaime para ir buscar um papel e lápis, como proto-explorador não mostrava grande previdência, voltou a descer e copiou os caracteres.
O Povo do Sol Poente
No dia seguinte foi pedir ao professor de história e geografia, já idoso e dado a ausências, para lhe explicar o significado da inscrição. Ele olhou para aquilo com óculos e sem óculos, com o nariz encostado ao papel e finalmente decretou: “Não percebo isto, os sinais têm qualquer coisa de familiar, mas não os compreendo. Copiaste bem?” Sim, tinha copiado tão exactamente quanto possível. “Levo o papel para casa para estudar o assunto”. O tempo passou, até que um dia o António, filho dele e seu colega, lhe disse que o pai estava na pista de qualquer coisa. Mais tempo ainda e entretanto a vala foi fechada e o pavimento refeito, embora não logo, andou meses portuguesmente a passar em cima das tábuas.
Finalmente, um dia o professor chamou-o: “Mandei o papel a um colega, lente em Coimbra, a inscrição é muito antiga e ele gostava de vir cá observa-la”. Pois... como se ele não lhe tivesse dito logo que estava no fundo duma vala de trabalhos municipais, lentos sempre, mas nem sempre eternos... E acrescentou: “Por semelhanças com outros alfabetos, achamos que o significado pode ser este: Somos o povo do Sol poente, senhores do grande Mar. Poente? Não faz sentido”. Em tempo normal, a descoberta da inscrição e o seu possível significado teriam dado tema para discussões na tertúlia, artigos nas páginas semanais que escreviam para os jornais da cidade e conferências. Mas essa altura já não era um tempo normal, teve que sair da circulação por algum tempo.
Recalcitrantes e demonstrativos
Ao voltar à cidade branca onde nasceu, após ter partido na infância, não compreendeu logo a forma saudosa como os pais se referiam a Setúbal durante as suas peregrinações. Era uma cidade pequena, embora no Liceu aprendesse que era a terceira maior do país, com largos com muita gente e ruas estreitas. Apenas a avenida Luísa Todi se podia comparar com as grandes artérias de outras cidades, e a essa a avó referia-se sempre como “a praia”. Tinha sido efectivamente a linha da costa antes dos trabalhos de aterro e construção do porto e docas.
As pessoas de família, amigos e simples conhecidos eram duma proximidade que se podia tornar asfixiante para quem era esquivo por natureza. Nas ruas encontrava-se gente pobre, trabalhadora e sobretudo recalcitrante. Da sua empatia com esta última qualidade, depressa se apercebeu de como a cidade tinha um espírito original, uma alma própria, indomável.
Entretanto nasceu a sua segunda irmã, prematura de sete meses, só com grandes cuidados sobreviveu. Uma boneca pequena, guardada ciosamente pela outra irmã. Nos primeiros tempos, só podia olhar sem tocar. Uns meses depois era uma criança normal. Tempos estranhos.
O Carreiro das falésias
A avó materna vivia em Setúbal enquanto namorou com o avô, que vinha de Sesimbra vê-la uma vez por semana. Contavam que ele fazia o caminho de barco ou a cavalo, e até mesmo a pé pela linha da costa, atravessando as praias na baixa-mar e os carreiros das falésias da Arrábida. Era o período conturbado do regicídio e da implantação da república. As cartas que o avô escrevia começaram por ser endereçadas “À Excellentíssima Menina...” e continuaram com “À Cidadã...”. Fez uma vez o caminho pedestre que o avô lhe ensinou, com alguns amigos com quem acampava nas férias. Partiram alegremente de Sesimbra de manhã cedo e chegaram a Setúbal ao fim de muitas horas, estafados e convencidos que o avô era um atleta e que a avó devia ter merecido tanto esforço.
Somos todos gregos
O avô materno era um republicano escaldado pela incompetência, pela desordem e pela corrupção dos dirigentes do regime em Lisboa. É dele a frase “este é um país beato e paspalhão”. Dizia que nunca haveria uma verdadeira república até que todo o povo tivesse ido à escola. Ironizava com a devoção religiosa da avó, dizendo que ele não precisava da intercessão de padres para ir direito ao céu. Ao que a avó respondia: “Sim, ao céu dos pardais, que é a barriga dos gatos”... Contava-lhe histórias sobre a origem da família, dos povos que vieram do mar para criar feitorias, lugares de trocas comerciais que se tornavam centros difusores de civilização. Eram navegadores e mercadores, armadores e pescadores. Gostava de conversar com ele, mas não atentava realmente na informação que ele lhe transmitia até muito mais tarde, quando se arrependeu de não se ter interessado mais pelo assunto enquanto ele foi vivo.
Anos depois e em dois continentes, os Embaixadores e representantes gregos junto das organizações internacionais onde trabalhou, fizeram-lhe a mesma pergunta, se sabia que o seu nome de família tinha origem grega. O que ele sabia por experiência é que os gregos pretendem sempre que estiveram primeiro em todo o lado, que estiveram na origem de todas as coisas. Mas como “si non è vero è ben trovato” lá foi ouvindo as histórias sobre a designação dos comandantes das galeras da diáspora helénica clássica, segundo uns, sobre o nome dado aos enviados do Basileus do Império Romano do Oriente, segundo outros. A única história documentada é aquela dum outro povo que também chegou primeiro a todo o lado... e onde aparecem navegadores com o seu nome nos cantos mais afastados da Terra. Como por exemplo, quando o filho estudava na Califórnia, foi contactado por quem estava a recuperar o conteúdo do galeão San Augustin, naufragado na baía de S. Francisco no sec. XVI, e que era comandado pelo “Capitan y Piloto Mayor” com o seu nome, que foi quem baptizou essa baía, onde se instalou primeiro a Missão e depois a cidade com o mesmo nome. Assim como baptizou muitos outros lugares daquela costa. Terá originalmente dado mesmo o nome à própria Califórnia, que é como se chama uma praia de Sesimbra desde tempos imemoriais. Lembrou-se então das conversas com o avô.
O carro do Padre
Voltando a Setúbal, a cidade era modesta, mas tinha uma classe média que sabia o que queria e uma população em geral sempre contra o regime que governasse em Lisboa, uma proximidade incómoda. Além disso, eram convictamente anti-clericais e de temperamento truculento. Não chegava o Bocage e outros tais, até a natureza parecia colaborar. Durante um tremor de terra, uma enorme cruz de ferro despenhou-se do alto da Igreja de S. Julião sobre o Volkswagen preto do padre, estacionado em frente... Durante dias houve peregrinações de incréus maldizentes, que abandonaram cafés e tabernas para se reunirem diante do carro esborrachado, num concurso de dichotes satíricos.
Chegou a ter pena do Padre, que era boa pessoa e professor de Moral no Liceu, só por aturar os alunos merecia melhor tratamento do seu Senhor omnipotente. Após estarem resolvidos os problemas mais prementes, como a chaminé da sua própria casa, que ruiu, os bombeiros lá levaram o carro. Depois as beatas, perdão... os paroquianos quotizaram-se e compraram-lhe outro carro.
O Maneta
Poucas crianças eram escolarizadas, mas as que o eram seguiam um caminho pragmático. Havia menos de mil alunos no Liceu, na prática reservado a quem tencionava prosseguir estudos superiores, mas entre dois a três mil na Escola Comercial e Industrial, de onde saíam com uma das profissões necessárias às empresas e fábricas da região.
Muitas vezes, depois das aulas, ficava a jogar futebol num terreno onde seria construído o estádio do Vitória. Um dia o jogo foi interrompido quando foi avistado o “bando do maneta”. A maioria pegou nas pastas escolares e foi-se embora. Ele tinha acabado de chegar à cidade e não percebeu logo o que se passava. Viu um bando de rapazes maltrapilhos que avançavam como qualquer bando de primatas, com uma atitude entre a mischievousness dos saguis da praia da Polana e a confiança cautelosa dos babuínos na Gorongosa.
Vinham sem pressa e estranhou alguma hesitação, até que se apercebeu que junto às pastas que serviam de postes da baliza tinham ficado três dos seus novos colegas, com caras de poucos amigos. Logo aqueles que nunca perdiam a oportunidade duma boa cena de pancadaria (mais tarde fizeram carreiras nas forças armadas, pura coincidência, claro...). O “maneta” aproximou-se e perguntou se tinham alguma coisa para comer. O jovem Albatroz olhou para o bando, estavam magros e macilentos. O “maneta” tinha um braço deformado e um ar ausente. Abriu a pasta e deu-lhe a sandes que tinha trazido de casa para o lanche. O “maneta” partiu-a ao meio, deu metade aos seus capangas e devorou a outra metade. Olhou para os colegas do Albatroz, que não mexeram uma pestana, depois fez meia volta e foram-se embora.
A cena repetiu-se algumas vezes. Os novos colegas passaram também a dar-lhes o lanche de boa vontade. A pouco e pouco conseguiram conversar. No bando ninguém ia à escola. Os pais eram pescadores ou trabalhadores ocasionais e algumas mães trabalhavam nas fábricas de conservas ou nos arrozais do Sado. Nos períodos em que os pais não estavam em casa ou estavam desempregados, o “maneta”, irmãos e vizinhos desenrascavam-se como podiam. Apanhavam laranjas nos pomares, peixe que caía na descarga dos barcos e roubavam o que calhava para sobreviver. Uma carcaça com bife, fiambre ou queijo, como ele e os seus colegas levavam de casa, era coisa onde o bando raramente metia o dente.
As meninas da caridade
Quando contou estes acontecimentos a uma das novas colegas, foi imediatamente recrutado pelas meninas das obras de caridade de S. Vicente, que lhe deram um curso acelerado de realismo social. Uma vez por semana, ajudava a carregar os sacos de géneros e roupas que elas distribuíam pelos ocupantes do antigo convento do Viso e outras zonas de casebres e barracas nos arredores da cidade. Os primeiros contactos com a realidade social do seu país foram educativos e decepcionantes. Muitos dos contactos seguintes também.
Como motivar os alunos
Foi recentemente convidado para participar na cerimónia de recordação dum antigo colega de Liceu, organizada pelos filhos dos seus vários casamentos. Biólogo, investigador da Gulbenkian, doutorado por Harvard, uma personalidade bocageana, poeta, irreverente, inquieto, o seu primeiro amigo quando entrou no Liceu.
Apercebeu-se, quando começaram as aulas, que lhe disputava o lugar de melhor aluno. Não logo, porque nunca tinha tido competição numa estrutura organizada. Mas depressa os dois se aliaram numa empresa muito mais excitante, ver quem conseguia colocar os professores em dificuldades, fazendo perguntas aparentemente inocentes mas às quais eles não soubessem responder. “Não sei” valia 1 ponto, uma resposta errada 5 pontos, a glória. Toda a turma fazia apostas. Procuravam pequenos factos nas diferentes disciplinas como pesquisadores de ouro, frequentavam mesmo a Biblioteca Municipal, fonte preciosa de informação, até encontrarem a pepita recôndita. Depois de a encontrar, é claro, passavam e resto da tarde a “pesquisar” a colecção de Cavaleiros Andantes...
Esta competição didactico-desportiva não acabou nada bem. Foram chamados ao Reitor, com os respectivos Encarregados de Educação, por manifesta falta de respeito pelos professores. De nada valeram os protestos de legítima curiosidade intelectual. Com o apurado sentido de psicologia educacional existente na época, todos os adultos concordaram que caso repetissem as graças, um par de tabefes seria um tratamento mais eficaz do que uns dias de suspensão.
A rua da Biblioteca
Chegar à Biblioteca era outra aventura. A porta principal do edifício dá para a avenida Luísa Todi, mas o caminho mais curto para eles passava na lateral, pela rua dos Navegantes, na altura chamada rua do João Galo, a rua da prostituição. As raparigas metiam-se com eles, a meio da rua geralmente aparecia um polícia que os interpelava: “O que é que vocês fazem aqui, rapazes, vocês ainda não têm idade para isto!”, e eles, com ar inocente: “Mas, senhor guarda, nós vamos à Biblioteca...”.
“O que é a vida sem mudança?”
Há alguns anos, tinha encontrado esse antigo colega num congresso, por puro acaso. Trocaram notícias e admirou-se quando soube que ele já ia no seu quinto ou sexto casamento. Ele próprio não sabia bem como contar, pois com algumas das suas “companheiras” tinham passado pelo Registo Civil, com outras não, tinha filhos de umas ou outras, independentemente dos papéis. À sua surpresa, o amigo respondeu: “ Olha, pá, tu mudas de país e de trabalho, eu mudo de amores. O que é a vida sem mudança?”.
Mais recentemente, tinham-se encontrado pela última vez num almoço de aniversário da turma no Liceu. Interessante, colegas que não via desde então, alguns poderia reconhecê-los na rua e lembrava-se dos nomes completos. E soube coisas de que nunca se tinha apercebido na época, como os sacrifícios que faziam “os alunos do comboio”, que vinham do Barreiro, do Montijo, das localidades ao longo da linha, dizia-lhe uma colega que por vezes chegava tão gelada que encostava as mãos à parede para as aquecer.
“Ói, mano!”
Após a cerimónia, ao pôr a conversa em dia com outros antigos colegas, mais uma vez notou que embora a cidade estivesse urbanisticamente irreconhecível, continuava a produzir personalidades excêntricas, first class oddballs. Deve ser genético, ou ambiental, ou da cultura de radicalismo social recalcitrante.
A história mais recente é a do Henrique, que teve a carreira política mais curta que se conhece. Reformou-se da Marinha e em 2009 um partido político convenceu-o a ser candidato às eleições legislativas. Tudo correu bem, até que acompanhou o cabeça de lista numa visita ao bairro social da Bela Vista. Ao entrarem num café, aproximou-se um habitante local que bamboleou: “Ói, mano!”. O Henrique olhou-o de cima a baixo e disparou: “Ói, mano!? Ouve lá, rapaz, que falta de respeito é essa? Manos são os outros filhos da mesma puta que te pariu!”. Deu meia volta e regressou à sua chafarica habitual a contar aos amigos que, definitivamente, a política não é para ele.
JSR

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