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| Casas de Pedra |
A expressão “palhotas de pedra” tem uma razão e uma história. Voltando a Portugal nos anos cinquenta do século passado o jovem Albatroz teve o choque de encontrar gente descalça nas ruas das cidades, grupos com crianças macilentas a fazer números de circo pelas esquinas e a pedir às portas, mulheres de preto embiocadas com lenços apertados debaixo do queixo como as muçulmanas. Até os criados eram brancos, um espanto que só compreende quem cresceu nas colónias africanas e entrepostos asiáticos. Um país pobre e atrasado, diferente do que imaginava como sendo a “Metrópole”.
A segunda grande guerra
O mundo recuperava da segunda grande guerra a velocidades diferentes e os países que mais tinham sofrido eram os que recuperavam mais depressa. A América tinha transformado a indústria de guerra em força de inovação, produção e exportação, e agora inundava o mundo com as suas empresas, os seus produtos e os seus turistas. Portugal era uma ilha, rodeada de dois lados por mar e dos outros dois por um muro de desconfiança. As distâncias tinham outro sentido, uma deslocação que nas colónias era perto na Europa era longe, uma questão de espaço mental. Não que as estradas fossem piores, nem melhores, mas estavam cheias de povoações, de gente, de carroças, de animais, como na Índia.
Era ainda pior nas terras do interior. Ao visitar os avós paternos na Beira conheceu cidades e aldeias duma pobreza insidiosa, pessoas a caminhar na neve sem agasalho nem sapatos, a viver em casas de pedras mal aparelhadas juntamente com os animais. Um dia ao jantar comentou que ali os brancos pobres viviam pior do que os pretos, até as palhotas eram de pedra. O pai e o avô olharam-no um momento, pouco habituados a críticas desta ordem. Sentiu que a caminho vinha uma catilinária sobre pensar duas vezes antes de falar. Já não se lembrava bem do avô nem dos seus olhos verdes, fixos, mas foi ele que o tirou do aperto: “Aqui muitos brancos vivem pior do que os pretos, é verdade, mas nem os deixam viver melhor nem eles sabem como”. Ponto final. Obviamente não era assunto para discutir à mesa. Da avó paterna, que rapidamente mudou de assunto, restam-lhe apenas na memória os cabelos brancos, a bondade nos grandes olhos azuis, as expressões de tristeza de o ver tão poucas vezes.
A guerra civil de Espanha
Se as raízes da família se encontravam nas terras altas portuguesas e na meseta castelhana, poucos restavam para contar as histórias dos que ficavam e dos que partiam. Constante era a insatisfação e compreendia-se porquê. Terras de beleza rude e fertilidade ingrata, eram pontos de largada para os homens de ambição e temeridade necessárias para a expansão colonial e outras aventuras. Em tempos mais recentes, os da idade do avô tinham-se sentido obrigados a intervir pelas duas partes em conflito na guerra civil de Espanha e poucos tinham voltado. Dos que voltaram, todos detestavam Franco, uns por ele ser fascista, outros porque ter usurpado o trono, uns e outros porque ele tinha pensado aproveitar a expansão alemã durante a segunda grande guerra para invadir Portugal. Pontos de honra fundamentais, numa família para quem a fronteira tinha sido sempre uma protecção... e um património.
Ao visitar a região de origem paterna, além dos avós e uns quantos parentes e dependentes, a maioria dos presentes estava de passagem. Por isso, depois do jantar contavam-se histórias e memórias para nostalgia dos mais velhos e edificação dos mais novos. De pouco se lembra, excepto do insólito de ouvir contar aos mais velhos episódios acerca da geração dos pais quando tinham a sua idade, aqueles mesmo que ralhavam quando se faziam coisas semelhantes... Mesmo assim, com os primos de idade próxima, estavam sempre ansiosos pela oportunidade de se poderem escapulir pela calada da noite.
Ao pai e a um tio um ano mais novo chamavam-lhes em miúdos “a parelha da cabeça vermelha”, segundo as tias por andarem sempre juntos, serem ruivos e endiabrados. Cada vez que contavam as histórias das suas tropelias, as tias acrescentavam: ”Pois, ruços de mau pelo, má casta e mau cabelo”. Quando lhes perguntou o que isso significava, disseram que era só um ditado popular. Só mais tarde se apercebeu da história que se escondia por detrás deste ditado. Para os mais novos, ruços eram os Russos, então comunistas, má gente. Para os mais velhos, "ruços" eram todos os que tinham o cabelo claro e que uma população maioritariamente morena e de cabelo preto olhava com alguma prevenção. Mas a verdadeira origem do ditado encontrou-a mais tarde. Russos vem de “russ”, o grito de guerra dos piratas vikings que assolaram as costas da Europa na alta Idade Média, assim como os rios da Europa Oriental onde se estabeleceram e onde acabaram por dar o nome ao país.
As festas da raia
Durante o Verão as povoações organizavam festas e largadas de touros, em que era de bom tom ir buscar os animais a cavalo, apenas para fazer número, a regra era deixar as iniciativas a quem sabia o que estava a fazer. Nas praças das aldeias, fechadas com carros de bois, era preciso correr a tocar os cornos dos bich0s e tentar fugir a tempo, mas inevitavelmente acabava-se por levar umas marradas, de preferência aparatosas sem serem incapacitantes. Para quem estava de visita, se tudo corresse bem acabava por ser convidado para pegar em grupo no forcão, uma armação de troncos que era preferível manter virada contra o animal. O que nem sempre acontecia, porque nem o touro é tão estúpido como parece nem os homens são tão habilidosos como pretendem.
Nas festas nocturnas que se seguiam, as meninas mais educadas diziam achar aquilo tudo uma barbaridade, escolhiam discos de cantores engagés, vedetas estrangeiras, bandas da moda e organizavam saraus literários. Saber compor umas quadras ou recitar uns sonetos na altura própria eram habilidades apreciadas, que podiam conseguir uma atenção personalizada às mazelas sofridas durante a convivência diurna com os jogos pagãos da plebe. Como explicavam os latinistas, pagãos vem de paganus, o camponês romano relutante em abandonar os deuses tutelares diante da expansão do cristianismo, ou seja neste caso, tutti quanti...
Julgava na altura o jovem Albatroz que era imperativo interessar-se pela História e pelas histórias locais, compreender as raízes familiares assim como as tradições e hábitos que lhe eram desconhecidos. Com o recuo dos anos apercebeu-se que embora o esforço fosse genuíno, francamente nunca se sentira integrado numa sociedade que era, a quase todos os títulos, feudal.
Das casas, quintas, campos, florestas e barrocais, recorda com alguma nostalgia apenas uma propriedade chamada “Fonte dos Lares”, onde havia um cabeço de carvalhos com a água a correr da fonte para um grande tanque de pedra. Recorda-a sobretudo como lugar isolado de alguns encontros românticos e clandestinos, nas últimas semanas de férias que passou na Beira antes de entrar na faculdade. Mais tarde os avós foram morrer em casa das tias no Porto e a memória das raízes beiroas da família paterna desvaneceu-se.
Mudanças paradas
Passados estes anos todos, as coisas mudaram o que tinham que mudar. Os camponeses e outros trabalhadores não conseguiam viver melhor aqui e por isso emigraram para as cidades da costa e para outros países. Mas ao principio viveram pior, nos bidonvilles dos arredores das cidades de acolhimento relutante. Entretanto alguns foram explorados e mesmo roubados por angariadores de trabalho escravo, por funcionários que lhes desviaram as poupanças em proveito próprio, por construtores de coelheiras sem isolamento e sem qualidade, pelo Estado que lhes desvalorizou o seu dinheiro. Agora deixam-nos viver melhor, mas ainda não aprenderam a viver bem.
Em grande parte, muitos portugueses continuam a não sabem gerir o seu próprio destino. Endividam-se excessivamente para construir, comprar ou melhorar as velhas casas sem conforto, para adquirir carros e outros bens de consumo que nem sempre têm a capacidade de pagar. Depois passam a vida enfeudados aos credores como os antigos servos da gleba aos senhores da terra. Outros continuam a viver nos lugares de origem como se o tempo tivesse parado. Para além do progresso material inegável dos últimos anos, embora ainda insuficiente, sobrevive a mentalidade tacanha duma teia corrupta de cumplicidades. Nem os deuses, antigos ou novos, têm dó de quem cai nas malhas da camorra dos caciques políticos, dos seus acólitos alapados nos centros de decisão e nas empresas, dos banqueiros indispensáveis e dos construtores das novas palhotas de pedra.
JSR

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