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| Domenico Ghirlandaio - Portrait |
Perto da casa da família em Setúbal, morava a “Sargenta”, chamavam-lhe assim por ser viúva dum Sargento da Marinha. Morava na “casa estreita”, uma porta no rés-do-chão, no primeiro andar uma janela de sacada, no segundo uma janela de peitoril e no telhado uma janela de sótão. A Sargenta era uma mulher de idade indefinida, pequena, magra, escura, de carrapito, sempre vestida de preto, de olho vivo, de palavra fácil e curiosidade descarada.
A primeira vez que a encontrou, ela parou-o na rua para lhe dizer tudo o que sabia sobre ele e sobre a sua família, disse-lhe também quem ela era e começou a fazer-lhe perguntas. Diante do seu silêncio embaraçado, respondia ela própria às perguntas, até que ele recuperou da perplexidade, disse “Então adeus” e desandou. Soube depois que a mulher vivia na casa estreita com duas irmãs, ainda mais pequenas e escuras, mas estas silenciosas e quase invisíveis, e uma filha. Da vez seguinte em que a Sargenta o viu, encostou-o à parede e não o deixou partir antes de lhe dar o recado: a filha estava em vésperas de exames finais na Escola Comercial, precisava urgentemente dumas explicações de matemática, “quando é que ele podia ir lá a casa?” Han? “Depois digo”.
Tinha a firme intenção de não dizer coisa nenhuma, nunca mais, que raio de abuso, mas a avó fê-lo reconsiderar, solidariedade e não sei quê e que mais, e insistiu, insistiu, mas não explicou que razões ela tinha. Ele lá acabou por ir, contrariado. Por dentro, a casa era uma espécie de antro tenebroso em forma de torre, cheia de móveis antigos e panos bordados, nem se atreveu a tocar na chávena de chá e ainda menos nos bolinhos. Mas quando a filha apareceu... surpresa, surpresa... viu que era loura, clara, linda... embora aparentemente tímida e fugidia como uma corça. Um mistério da genética e um milagre da natureza.
Uma criada que trabalhava na casa dele referia-se sempre à casa estreita como “a casa das bruxas”, dizia que a filha da Sargenta era “uma flor venenosa” e não o deixava lá ir sem se certificar que levava no bolso um saquinho que ela tinha preparado com amuletos contra qualquer coisa, cheirava a uma erva que ela dizia ser “arruda”. Ele deitava o saco fora, mas aparecia sempre outro no seu bolso quando ia dar as explicações.
A Sargenta começou por se sentar na mesma sala com a sua caixa de costura, mas ele teve que lhe pedir para sair, a mulher era absolutamente incapaz de se manter calada. Vinha espreitar de vez em quando, perguntava se o chá estava frio ou outra coisa qualquer, devia saber que a filha tinha as suas manhas... e a mesa redonda tinha uma camilha até ao chão. A rapariga tímida também tinha pés, e joelhos, e mãos, e todas as outras partes anatómicas nos sítios e proporções certos, que ela usava como instrumentos experimentais de sedução. Era esperta, embora tivesse a cabeça atulhada de trapalhadas e histórias de romances de cordel. Sentia-se reprimida pela mãe e pelas tias e, muito mais do que em explicações de matemática, estava interessada em explorações de anatomia comparada...
Pareceu-lhe que a Sargenta deixava correr, apesar das espreitadelas inopinadas, ou talvez não. Ele não estava preparado para essas subtilezas, mas a rapariga parecia saber o que fazer e quando não fazer. No tempo que sobrou, e nem foi assim tanto, foi preciso acordá-la para a realidade duma ciência exacta, explicar os exercícios, obrigá-la a trabalhar, embora por vezes... acordada sim, atenta ao que ele dizia? Muito menos. Veio Junho e a rapariga deve ter aprendido umas coisas, pelo menos da matéria escolar, porque lá passou os exames.
Acabaram-se as explicações quando ele já não se importava nada de lá ir a casa. Ainda trocaram uns bilhetinhos nas caixas do correio para encontros furtivos e rápidos no Parque do Bonfim, mas depois dos fins de tarde excitantes a que se tinham habituado, os bancos do jardim depressa perderam o interesse. A avó decerto percebeu o que se passava e comentou que a Sargenta guardava a filha como um dragão, não a deixava ir a nenhum dos lugares onde é normal encontrarem-se os rapazes e raparigas daquela idade. Esperava certamente que se materializasse do nada um noivo ideal, com todas as qualidades requeridas para a levar no seu cavalo branco...
Entretanto a criada deu em defumá-lo enquanto tomava o pequeno almoço antes de sair para o Liceu, apanhando-o de surpresa com uma espécie de incensório, um cheiro pegajoso. Na primeira aula, uma professora perguntou-lhe uma vez se ele vinha da missa da manhã, que cheirava a incenso, para grande gozo dos colegas. Ele irritava-se, um dia atirou o incensório pela janela fora, a avó ria-se e ia perguntando se já tinha arranjado uma namorada. Ele nunca respondia, mas por grande acaso ou não, quando começou uma relação mais ou menos desse género acabaram-se de súbito as defumações. As mulheres mais velhas lêem nos rapazes como em livros abertos.
Até acabar o Liceu continuou a encontrar a filha da sargenta por vezes na cidade, muito raramente, ou mais frequentemente via-a passar aos Domingos a caminho da missa, sempre acompanhada da mãe ou das tias, paravam para cumprimentar ou diziam adeus de longe, ela fazia-lhe um sorriso entre o atrevido e o triste, enquanto a mãe falava como uma metralhadora ou apressava o passo.
Muitos anos mais tarde, ele soube por acaso que a rapariga continuava solteira, não lhe souberam dar mais detalhes. Certamente o “prince charmant” nunca chegou. Que sentimento de melancolia, que tristeza e sobretudo “quel gâchis”...
JSR

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