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| Companhia Colonial de Navegação - Pátria |
Todos os impérios, lato sensu, têm um período heróico de expansão, um tempo de equilíbrio e paz onde a civilização progride e depois acabam por se desmoronar, normalmente mais por degenerescência própria do que por forças exteriores. A última grande guerra europeia trouxe o fim do eurocentrismo mundial. Progressivamente extinguiram-se os respectivos impérios e com eles a época dos paquetes.
As viagens de longo curso nos paquetes coloniais foram provavelmente a última grande época romântica. Os navios das companhias de navegação reflectiam os estereótipos de cada país, os ingleses eram snobs, os franceses mondains, os holandeses kitsch e os portugueses... imitavam os ingleses. Os rapazes da sua idade ("sua" refere-se ao jovem Albatroz, personagem destes escritos), coleccionavam postais dos navios e reconheciam as companhias pelas cores das chaminés. Das portuguesas, a Nacional tinha chaminés pretas e a Colonial amarelo, preto e branco. Dos navios portugueses, lembra-se sobretudo do Pátria e do Império para as carreiras de África.
Por baixo das boas maneiras escondia-se o que faz uma micro-sociedade ociosa: jogos, intrigas e libertinagem. O “sun, sea and sex” original. Os mais novos andavam por todo o lado e observavam tudo. Formavam um grupo segregado dos adultos, nas horas das refeições e nos interesses, mas que se intersectava por vezes nos divertimentos. As passagens do Equador eram uma dessas ocasiões, uma espécie de Carnaval misturado com praxes académicas. O julgamento de Neptuno e os castigos infligidos aos neófitos eram geralmente benignos, mas mais arriscados para essa combinação explosiva que eram as mulheres jovens e que viajavam sós. Ainda hoje não se pode evitar de perguntar se a instituição do casamento por procuração não ultrapassou largamente a expectativa do legislador, na rapidez e na eficácia do povoamento das colónias...
Outra das ocasiões de mistura eram os temporais. A maioria dos adultos enjoava e reuniam-se no grande salão, no centro de gravidade do navio, onde os balanços tinham menor amplitude. Numa passagem pelo Cabo da Boa Esperança, durante dias havia quem não saísse dali, onde eram distribuídas bebidas e sanduíches. Durante algumas horas nem isso, o navio parecia estar numa montanha russa e muita gente estava pálida e apreensiva. Algumas senhoras queriam laranjas para disfarçar o medo e o enjoo. Do seu grupo, dois ou três rapazes faziam carreira entre o salão e a cozinha para as ir buscar.
Duma das vezes, ao voltarem, estava um homenzinho empertigado no meio de salão a perorar: “Faço esta viagem muitas vezes” - dizia ele - “ isto não é nada, ainda não passámos o Cabo das Agulhas, aí é que vão ver...”. O que todos viram logo de seguida foi um balanço maior atirar com o imbecil ao chão, arrastá-lo de rabo contra as janelas de um lado do salão e logo outro balanço enviá-lo em sentido contrário. O primeiro balanço tinha-os feito largar as laranjas para se agarrarem, mas ao verem o homem voltar deslizando pelo chão acompanhado pelas laranjas como numa mesa de bilhar, romperam numa grande galhofa, imediatamente acompanhados pelas gargalhadas dos outros passageiros. Nunca mais viram o experiente navegador.
Na primeira dessas travessias de que se recorda, encontrou o seu “anjo da guarda”, ou assim o acontecimento passou à pequena história. Estava com outro miúdo numa das muitas zonas onde estavam proibidos de ir, a espreitar por uma abertura do convés para a lavandaria. Um balanço súbito fez desprender do gancho a enorme tampa que ia cair sobre eles e decapitá-los. A partir daí há três versões. As amigas da mãe, que vinham com ela à sua procura, juraram que a viram levantar a mão e dizer: “Pára”, e a tampa parou um momento e depois caiu para o outro lado. Dizem que ele afirmou, no meio de toda a comoção, que o “anjo da guarda” tinha segurado a tampa da vigia. O pai, que não estava presente no momento, achou que um contra-balanço oportuno tinha equilibrado a tampa primeiro e depois enviou-a no bom sentido, salvando-lhe a vida. Mas nem o “anjo da guarda” o livrou de ficar de castigo, limitado a um raio de três metros à volta dos pais durante o resto da viagem.
Numa viagem posterior, uma das irmãs, ainda muito pequena, fez a viagem numa trela presa ao cinto da mãe, para evitar percalços do género descrito acima. Não sabe se se deva culpar pelo traumatismo que essa restrição de liberdade possa ter causado à irmã, pois o incidente poderá ter sido a origem remota de ela mais tarde se ter tornado psicóloga e de extrema esquerda...
Mesmo nos paquetes mais modernos para a época, as viagens podiam durar semanas. Partiam de Lisboa e iam parando nos portos do império, cada qual com as suas idiossincrasias próprias: Funchal, São Tomé, Luanda, Lobito, Cape Town, Lourenço Marques, Beira, Moçambique, Nacala. Alguns portos já tinham cais para grandes navios, noutros ia-se a terra de escaler ou baleeira.
O Funchal era um deslumbramento, um presépio de mil luzes nas chegadas nocturnas. De dia vinham pequenas embarcações vender de tudo junto ao navio. Vinham também miúdos que mergulhavam a apanhar as moedas que lhes atiravam da amurada. Mas só as moedas claras, mais valiosas e que eles viam melhor, com as escuras nem se incomodavam. Em terra descia-se da serra em cestos, sempre demasiado devagar para o seu gosto. Ele bem gritava: “larga, larga!”, mas embora os ilhéus devessem ficar tentados a fazer-lhe a vontade, nunca se dispuseram a deixar estragar um cesto.
Nalguns portos havia enormes guindastes e terminais de caminhos de ferro, em todos havia barulho e confusão. Após dias no mar, os castigos e restrições esquecidos, vinha a curiosidade, a exploração, o desespero dos pais e da tripulação a tentar controlar e por vezes até encontrar, os membros imaturos da tribo. Viajar com crianças e pré-adolescentes é uma provação que só os pais compreendem, que os faz ganhar os pontos necessários para saltar a casa “purgatório” no monopólio cristão, subir na escada da reincarnação para os hindus e budistas, ou simplesmente confirmar a sucessão generacional de “cá se fazem, cá se pagam” para os que não têm o karma dos iluminados.
Da África para o Oriente havia carreiras complementares. Da Europa para o Oriente havia o caminho pelo Canal de Suez. Também já se ia de avião, de escala em escala, penosamente. A expansão das ligações aéreas representou o declínio das autenticidades regionais, o acelerar da homogeneização das sociedades humanas, o triunfo da era tecnológica global e o fim das viagens nos paquetes coloniais.
JSR

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