A maior parte da sua escolaridade foi obra da mãe, devido às frequentes deslocações. Para fazer o exame da instrução primária, necessário para entrar no Liceu, frequentou a Escola João Belo e passou com a nota máxima e um prémio que havia então em Moçambique. Os pais exprimiram a satisfação comedida de quem acha que ele não tinha feito mais do que a sua obrigação. Ele próprio e os amigos não ligaram nenhuma, para além de que precisava duma bicicleta, recebeu a bicicleta como prenda e tudo estava bem no mundo. A bicicleta era a liberdade de se deslocar com os amigos aos Velhos Colonos ou ao Ferroviário, onde iam jogar hóquei em patins ou passar a tarde na piscina. Com promessas e juras de não se aproximar de carros e machibombos.
Os seus vizinhos e amigos eram mais velhos, quando os conheceu já todos andavam no Liceu Salazar. Nos jogos acompanhava-os bem, mas em certos aspectos de maturidade eles faziam-no avançar mais rápido do que as suas próprias rodas. Como da vez em que na piscina, um deles teve a ideia de atirar um enorme lagarto que tinham acabado de apanhar, por uma janela alta nas traseiras do vestiário das raparigas. Claro que foi o mais novo quem foi destacado para concretizar a malvadez. Os outros esperavam diante das portas de saída, como conjurados em emboscada, ou mais propriamente como focas à beira da água. Atirou o lagarto pelo respiradouro e ao dar a volta a correr foi encontrar as meninas em fuga e em diversos estados de nudez. Os amigos rebolavam-se de riso e de gozo.
“Foste tu, malandro?” constataram elas e atiraram-se para cima dele como jogadoras de rugby. Mas após a confusão, o espírito prático da mente feminina depressa apareceu: “Vais já tirar dali o bicho!”. Levou mais tempo a apanhar o animal e escapou-se mais vezes do que seria razoável. Por vezes o crime compensa... Foi uma revelação constatar que a fúria das meninas, apesar das ameaças e dos gritinhos, foi na realidade uma surpresa excitante para todos. Aprendeu que as declarações de guerra entre os sexos se resolvem depois sem tratados de paz...
Por essa altura nasceu a primeira das suas duas irmãs. Era interessante observa-la, acompanhar o desenvolvimento, mas não ousou tocar-lhe até ela começar a gatinhar. Demasiado frágil, contrariamente às crias dos outros mamíferos, os humanos nascem sem a capacidade sequer de suportar o peso da própria cabeça. Precisam da atenção de todos os momentos e só adormecem e dão um pouco de sossego enquanto fazem a digestão. Num desses preciosos momentos, a irmã tinha acabado de adormecer e a mãe tinha-se finalmente sentado a ler, ouve-se o barulho duma mota que passava e repassava em frente à casa. Era o meio da tarde, na vivenda da frente estava uma rapariga na varanda, e na rua alguém estava a mostrar as suas habilidades. Mas a mãe perdeu a paciência e de repente levantou-se e fez um gesto como que a afastar uma mosca importuna. No mesmo momento a mota desequilibrou-se e resvalou para um lado, enquanto o cavaleiro do trovão se estatelava para o outro. Silêncio. Após a estupefacção e por causa das dúvidas, ele e os amigos, que tinham chegado entretanto, foram rapidamente ver o que se passava longe de casa...
A propósito da casa da frente, era “a casa da Maria Parida”... A alcunha vinha dum comentário do pai, feito um dia entre dentes, quando voltava com ele para casa. Era a hora do almoço e a senhora acenou-lhes do jardim dela, onde frequentemente ainda estava de roupão e chinelos... Para o pai, a preguiça, o desmazelo, a desordem, eram pecados mortais para os quais não tinha a menor tolerância. Além disso, tinha a irritação fácil e a língua certeira. Algum dos empregados ouviu o comentário, ou a resposta à pergunta sobre o seu significado, e a alcunha espalhou-se como fogo em tempo de seca, colando-se para sempre à casa e à dona.
Pouco tempo depois teve que pegar na irmã et pour cause. Tinham dois cães enormes, dois “leões da Rodésia” trazidos ainda em cachorros por amigos Sul-Africanos, acorrentados durante o dia por terem mau temperamento. Como todos os cães, conscientes da sua posição na alcateia. Respeitavam o pai que os castigava à mais pequena desobediência. Adoravam a mãe que por vezes deixava que se deitassem junto à chaise-longue enquanto lia, com as cabeçorras encostadas aos pés dela. Devia ser o ponto alto do dia deles, porque se alguém chegava perto era acolhido com rosnadelas ameaçadoras. Brincavam com ele como quaisquer outros cachorros, só que não era fácil controlar a sua força antes de os fazer correr atrás da bicicleta até se cansarem. O resto do mundo era inimigo a abater.
Quando a irmã chegou a casa vieram cheira-la, com algumas precauções por parte dos pais. Mas meses mais tarde, um dia ao voltar a casa encontrou os empregados em grande aflição, os pais não estavam e o moleque cuja única tarefa era tomar conta da irmã teve um momento de desatenção e ela foi gatinhando até onde os cães estavam presos. Cada vez que um deles tentava aproximar-se os cães rosnavam. Entretanto a irmã acalmava o incómodo do nascimento dos primeiros dentes mordendo-lhes as orelhas, o que eles suportavam estoicamente. Foi imediatamente busca-la e os cães devem ter suspirado de alívio.
As pessoas que trabalhavam na casa, “os pretos” em linguagem corrente, ou “os indígenas” na political correctness da época, enriqueciam-lhe a vida duma forma incalculável. Eram pessoas calorosas, alegres, pacientes, maliciosas, perfeitamente solidárias com quem lhes fosse leal. Não contou aos pais (até muito mais tarde) o incidente da irmã e dos cães. Mas também, às perguntas dos pais acerca de qualquer patifaria que ele fizesse, a resposta deles era sempre “num sabe”... O moleque que passeava a irmã no carrinho, vinha duma senzala próxima da Malhangalene. Ensinou-o a procurar as formigas de mel nos formigueiros, escavavam a terra até encontrar os insectos pendurados na dispensa com os abdómenes inchados como pequenos bagos de uva. Deliciosos, apesar das ferroadas. Quando ia a casa trazia-lhe objectos artesanais como arcos e flechas, com os quais ele fazia acidentalmente, não por grande habilidade, estragos entre os pombos da criação dum vizinho do bairro. O homem queixava-se, mas à origem das penas no jardim e aos restos do raro churrasco com os amigos (ajudados pela cozinheira, porque da primeira vez puseram o bicho no fogo com penas e tripas...) a resposta era: “num sabe”.
A cozinheira era uma tombazana folclórica, nas formas generosas, na atitude maternal, no comportamento expansivo. Na época da reprodução das formigas punha alguidares de água debaixo das luzes exteriores da casa, com as formigas de asa que lá caiam durante a noite fazia umas papas torradas de sabor totalmente indescritível, que só os empregados e ele achavam um pitéu, os outros “brancos” não suportavam sequer o cheiro. A uma amiga da mãe que sofria de artrite incapacitante, que lhe deformava os dedos das mãos com dores horrorosas, a cozinheira preparou-lhe uma poção da medicina tradicional, com a condição absoluta de não lhe perguntarem a composição. A senhora melhorou o suficiente para lhe ir oferecendo quantias cada vez maiores para lhe revelar o segredo, antes de voltar a Portugal. Finalmente a cozinheira relented e contou. Da composição faziam parte, entre outras coisas pouco ortodoxas, a quitina de insectos secos e moídos, o mais comum dos quais era a barata doméstica...
Alguns anos depois, a vida profissional levava-o de vez em quando a Johannesburg. Duma das vezes aproveitou para, a partir do Kruger Park, alugar um velho avião Cessna e sobrevoar toda a zona até ao vale do Limpopo. Foi no tempo da guerra civil e Moçambique era uma devastação. Os guerrilheiros matavam os animais para se alimentarem e viam-se as carcaças de elefantes a apodrecer, donde tinham extraído os dentes para o contrabando de marfim. De repente uma rajada de metralhadora, seguida de outras e tiros isolados. O piloto imediatamente mudou de direcção e desceu de altitude até rasar as copas das árvores. Voltaram ao ponto de partida com buracos numa asa e na cauda do avião, com a sorte de nem o piloto, nem o passageiro, nem nada de essencial no aparelho, terem sido atingidos.
Mais alguns anos e Moçambique candidatou-se a membro do FMI e do Banco Mundial. Quando entrou na sala de reuniões onde se encontrava a delegação, a fim de discutir a futura quota do país, viu um dos delegados a olhar alternadamente para ele e a consultar o papel com a agenda, várias vezes e com ar confuso. Olhou também para a lista de participantes e compreendeu a perplexidade. Reconheceu o nome do homem e viu que no seu não constava o segundo nome próprio, pelo qual era conhecido quando ambos tinham sido colegas na Escola João Belo. Small world.
JSR

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