Monday, 25 October 2010

4 - O Cheiro da Terra

Èdo Messenger
Nunca se esquecem as memórias de África. São outros mundos. Particularmente a África negra, a parte ao Sul do grande deserto, onde teve origem a nossa espécie e que deve tocar nalgum subconsciente atávico. As duas costas, Oriental e Ocidental, são tão diferentes uma da outra como o alvoroço súbito do Sol a nascer do mar dum lado, se opõe ao fatalismo abrupto do Sol a desaparecer do outro lado.  O Albatroz enquanto jovem conheceu melhor, nos primeiros anos da segunda metade do século XX, a parte oriental que vai de Nacala até Cape Town e algum do interland correspondente. Na outra costa visitou superficialmente as cidades dos portos de escala. Voltou mais tarde a África, mas os tempos da inocência tinham passado.
Do Oceano Índico vem o regime das monções, a alternância da seca e das chuvas, a violência dos temporais. As nuvens chegam com a rapidez dum cavalo a galope, frequentemente ao fim do dia, desfazem-se em trovoadas monumentais e chuvadas mornas com fios de água a pique. O pai gostava de observar as trovoadas. Estavam numa das janelas altas da fortaleza de S. Sebastião, na Ilha de Moçambique, a ver o espectáculo dos relâmpagos quase  contínuos e do fogo de artifício dos raios à distância, quando um raio veio atingir inesperadamente uma das pilastras das muralhas. O pai só teve tempo de os atirar para o chão e abrigarem-se parcialmente atrás da parede. A pilastra explodiu em mil lascas de pedra. Algumas foram-se cravar numa perna do pai, apesar da capa de tela encerada, e fizeram-no coxear durante algum tempo.
A Ilha de Moçambique tinha uma cidade de pedra construída pelos portugueses e uma cidade árabe de casebres, bazares e ruas estreitas. A cidade de pedra estava quase em ruínas, uma humidade verde e castanha subia pelas paredes que ainda estavam de pé. Na cidade árabe falava-se swahili e cheirava a especiarias e a peixe podre. Na praia estavam dhows de comércio para cabotagem e longo curso e esquifes estreitos para a pesca.
Na Fortaleza ainda havia enormes armários e mesas de madeira negra, centenários, uma tentação irresistível de explorar o conteúdo. Ao abrir uma gaveta de paramentos deu de caras com uma enorme barata tropical, que avaliou a situação mais rapidamente do que ele e antes que a apanhasse levantou voo por cima da sua cabeça como se fosse um pássaro.
As noites do Índico tinham um negro profundo, povoado de luzes que pareciam estar ao alcance da mão. A mãe mostrava-lhe os planetas e as constelações, via nelas animais, seres mitológicos, conjunções e significados, onde ele só via acaso e confusão. Com duas excepções, reconhecia o Cruzeiro do Sul e era sensível à beleza magnífica do céu negro que o envolvia com um peso avassalador.
Em Nampula ouvia o apitar nocturno dos comboios, um som melancólico que ficou na memória como um omen. Mais impressionante que o riso das hienas ou o rugir dos leões no veldt do interior, no Kruger e na Gorongosa, onde o pai ia caçar com os amigos. Via a vida selvagem sobretudo pelos binóculos, o aproximar dos jeeps punha os animais imediatamente em fuga e à distância. As noites eram passadas por vezes em tendas junto às senzalas. A oferta duma peça de caça era motivo suficiente para batuque, dança, álcool e comezaina. À luz das fogueiras e dos candeeiros a petróleo, tudo aquilo tomava proporções alucinantes.
Das Rodésias e da África do Sul, quase todos os caminhos vinham dar a Nacala, à Beira e a Lourenço Marques. Lourenço Marques era antes de mais um porto magnífico, com tubarões bem visíveis nas águas transparentes à volta dos navios. Em frente, as ilhas de Inhaca e Xefina, para onde se ia de baleeira ou num teco-teco que aterrava na praia. Para esta última ilha foi uma vez arrastado um hipopótamo, após um temporal que provocou as cheias habituais nos rios do continente. Foi preciso abatê-lo, pois estava a devastar as machambas dos indígenas. Quis absolutamente acompanhar o pai no teco-teco e isso valeu-lhe como recordação um cavalo-marinho feito da pele do bicho.
As praias eram sem fim, mas havia sobretudo a do Polana, hotel e esplanada que eram frequente destino dominical. A zona onde se podia nadar tinha uma rede que era suposto proteger da entrada de tubarões, mas cada temporal deixava espaço entre a parte inferior de rede e a areia do fundo. Havia instruções para nadar para terra imediata e calmamente, cada vez que alguém visse uma barbatana dorsal dentro da zona delimitada. Sem espalhafato nem aflição que enviassem aos tubarões a mensagem “lunch”.
Das árvores junto às praias desciam macacos que vinham roubar comida e tudo o resto com o maior descaramento. Enxotar podia-se, tentar apanhar algum trazia o risco duma dentada feroz. A descida para a praia era feita por uma estrada em caracol escavada nas arribas. Um dia, as chuvadas provocaram o aluimento das terras, destruíram a estrada em caracol e soterraram algumas casas e carros junto à praia.
Durante a monção das chuvas podia cair granizo em tamanho e quantidade tais, que partia as vidraças do único grande armazém da cidade e provocava inundações. Aconteceu uma vez em que voltava da escola, acompanhado por uma colega e um "impedido" do pai, que os ia regularmente levar e buscar. Abrigaram-se na primeira vivenda que encontraram no caminho, mas o homem prosseguiu, insistindo que tinha que avisar os pais. Não se sabe como sobreviveu ao que se revelou ser um ciclone devastador, mas quando tudo passou veio calmamente buscá-los.
Pode ser um lugar comum mencionar o cheiro da terra depois da chuva, mas é uma realidade inescapável, que não se compara a nada, que entra na memória para sempre como o cheiro inesquecível de África. 
JSR

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