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| Púlpito da Igreja do Bom Jesus, Goa |
No meio do século XX, aconteceu o pesadelo da última guerra civil europeia, que se tornou mundial e acabou por mudar a estrutura política e económica internacional. Para quem nasceu nessa época, das cinzas e destroços dos conflitos apareceu um mundo novo de esperanças, que o passar dos anos havia de revelar como tendo sido o último tempo da inocência.
Estavam em Goa depois da independência do Raj e de Gandhi ter sido assassinado. Dos acontecimentos que poderia ter esquecido, foi sendo relembrado em reuniões de família e amigos, com álbuns de fotografias, postais e cartas. Lembrava-se do porto de Mormugão, do rio Mandovi, de Pangim, de Velha Goa, de Bombaim, mais vagamente de Damão, de Diu e de outros lugares da Índia. Fortalezas, igrejas, conventos, palácios, ruas, casas e praias. Tudo impressionante, excessivo, decadente, atravancado, sujo.
Lembrava-se dos satyagraha, preocupantes de início e depois objecto de visita às zonas de fronteira onde, empoleirado num jeep, observara os latagões negros dum batalhão vindo de Moçambique, com risos cheios de dentes brancos, reenviarem a pontapés e coronhadas para o outro lado das barreiras uns bandos de magricelas descalços com bandeiras e cartazes, no meio de grande vozearia. Parece que não tinham sequer balas para as espingardas, umas Mauser alemãs, que usavam como cacetes.
Havia umas crianças que moravam numa enorme casa apalaçada perto da sua. Faltava metade do portão do jardim e uma janela baixa não fechava. Ensinaram-no a entrar e sair por aí, fugindo de quem o guardava. Na cozinha havia sempre mulheres a oferecer comida estranha, mas com um cheiro e sabor deliciosos. A casa era um labirinto de divisões, de armários e outros móveis, onde podiam jogar às escondidas. Falavam concani entre elas e português com ele. Queria perceber o que elas diziam. Palavra a palavra, frase a frase, foi aprendendo. Por fim, já comunicavam bastante bem em concani, ou assim pensava ele.
Muitos anos mais tarde, em Washington, tinha um colega Indiano no FMI , cuja família era de origem goesa. Um dia o colega pediu-lhe para tentar recordar algumas expressões em concani. Com algum esforço de memória fez-lhe a vontade. Ele riu-se tanto que se engasgou: “Yes, its sort of concani... but I would advise you not to repeat that in polite company”. Parece que os seus pequenos vizinhos lhe tinham sobretudo ensinado, ou aquilo de que ele se recordava melhor, era um chorrilho de asneiras no melhor vernáculo local.
Os outros miúdos chamavam-lhe “inglês”, devido ao seu cabelo louro. Má época para parecer inglês. Numa viagem a Bombaim, dias agitados por marchas e protestos, um amigo do pai veio buscá-los ao hotel. Ao tentarem sair, um graduado da polícia tentou dissuadi-los: “Today, no good for English”. Ao que o pai retorquiu que era Português, naquele seu estilo ombrageux, que ele acabou por imitar inconscientemente nas circunstâncias idênticas que a vida havia de lhe proporcionar. O amigo declarou: “and I’m a Scot”. A mãe fez notar que não estava para aturar machismos e pôr em risco uma criança. Após negociações, o pai partiu à frente abrindo caminho com o pingalim, a mãe no meio e ele às cavalitas do escocês fechavam a marcha. Passaram pela multidão sem o menor problema e guardou uma excelente recordação do passeio e da vista elevada...
Havia o Cónego Franklin, que lhe contava histórias das grandezas do Império português na Ásia, mas insistia em ensinar-lhe a catequese. Ou vice-versa. Histórias de navegações e conquistas tinham a sua atenção indivisa. Mas achava a catequese um fastio, cheia de histórias e personagens insípidas quando comparadas com a riqueza das aventuras dos deuses da mitologia local, que o Cónego contava também em resposta às suas perguntas. Fazendo sempre notar a importante distinção entre a verdadeira fé no Deus único, em Jesus Cristo e S. Francisco Xavier, e as crenças locais em múltiplos deuses pagãos, que prevaleciam até à chegada providencial dos Portugueses...
Porém, para ele não havia sequer competição. Dum lado, um Deus autoritário com mandamentos de faz isto e não faças aquilo, com seguidores que se compraziam em serem martirizados. Na altura não conhecia o termo masoquismo, mas a ideia era essa. Do outro lado, um panteão cheio de seres fantásticos, com transmutações e batalhas que desafiavam a imaginação. Na altura também não sabia o que eram drogas psicotrópicas e o efeito que têm nas visões de múltiplas gerações de entusiásticos fiéis, mas o espanto era o mesmo.
Ganesha e Hanuman eram os deuses que convinham então à sua idade mental. Um deus com cabeça de elefante (wow!), que satisfaz desejos quando devidamente acompanhados dum suborno de oferendas, mas no qual se pode bater com varas quando o pedido não é satisfeito. E um deus macaco, capaz de todas as tropelias de que nem os cartoons incipientes da época conseguiam sequer aproximar-se. Quem era capaz de fazer melhor?
Ao voltar a Portugal, frequentava o Liceu de Setúbal quando a União Indiana anexou Goa. Foi imediatamente recrutado pelo Reitor para fazer um discurso de repúdio, em nome da juventude local, da varanda da Câmara Municipal e para uma Praça do Bocage cheia de gente. O mais interessante é que estava genuinamente irritado com o facto, achava uma ofensa pessoal que os sucessores de Gandhi, homem que admirava, viessem assim invadir as suas memórias. Tudo o que escreveu, disse e acabou noticiado, foi sentido. Excepto que o deram como nascido em Goa, obviamente para efeito político-jornalístico. Aprendeu cedo os limites da confiança que se pode ter nessas actividades exóticas também.
Das memórias de Goa, faz parte, inesperadamente, a celebração do ano de Portugal na Europália, em Bruxelas. Exposição extraordinária e uma visita em família para reforçar as raízes nacionais dos filhos, portugueses por eclipses ainda mais raros do que os seus. Ao entrar numa sala, a revelação. À sua frente um púlpito indo-português, esculpido com as figuras que tinham povoado os seus sonhos durante as muitas vezes que tinha adormecido perto e abaixo dele, nas várias e intermináveis cerimónias religiosas a que o faziam assistir. A sua mãe por devoção e o seu pai porque achava que era uma obrigação, dado que “viemos impingir o nosso fanatismo a esta gente, o mínimo que devemos fazer agora é dar o exemplo da nossa presença”.
Ao olhar com atenção o púlpito, agora mais baixo e mais perto, reparou que as figuras esculpidas não eram assim tão inocentes. Os artesãos goeses tentaram agradar aos seus mentores cristãos, da mesma forma sincrética que outros indianos já tinham agradado aos muçulmanos. Subjacentes estavam lá claramente os seus deuses ancestrais, os favoritos dele e muitos dos outros que tinham povoado a imaginação da sua infância. Sic transit... dei mundi...
O Cónego Franklin ofereceu-lhe, quando partiu de Goa, um pequeno castiçal de cobre com uma vela colorida, que guarda até hoje. Da Igreja do Bom Jesus. “Para que Deus lhe iluminasse o espírito e o ajudasse a encontrar sempre o melhor caminho na vida”. Os seus pais ficaram muito sensibilizados. Ele considera que o Cónego já adivinhava que era em desespero de causa.
JSR

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