Friday, 22 October 2010

1 - Os Ventos do Largo

O Anti-Ciclone dos Açores 
No meio do Atlântico, levantou o blinder da janela do avião e sentiu no rosto o calor do Sol. Detestava esta mania que tinha ganho as companhias de aviação, desde a deregulation, de escurecer as cabinas durante parte dos voos para acalmar os passageiros e descansar as tripulações. Não conseguia dormir durante o dia, quando viajava no mesmo sentido que o Sol e esta prática não fazia sentido nenhum no Concorde, no qual se chegava a New York mais cedo do que a hora da partida em Paris. Àquela altitude distinguiam-se lá em baixo os contornos do anti-ciclone dos Açores. A consciência de como era extraordinário que o desenvolvimento científico lhe proporcionasse aquela vista, daquele lugar, quase que anulou a preocupação que trazia com as circunstâncias da sua própria mortalidade.
As decisões devem ser tomadas duma forma racional, era uma das suas regras, por isso ponderava desde há várias semanas o que fazer em relação às recomendações dos cardiologistas dos dois lados do Oceano. Levantar o pé do acelerador, curioso como ambos tinham usado expressões semelhantes, easy on the gas dum lado e levez le pied do outro, como se a vida fosse uma corrida de automóveis. Corrida sim, mas contra o tempo. Desde que tinha consciência da  sua própria individualidade, ou da sua existência, que sentia como esta estava ligada ao correr das horas e dos dias. Precoce e impaciente, diziam, a verdade era que até à idade adulta partilhara interesses e acontecimentos com pessoas mais velhas e os marcos mais significativos da sua vida aconteceram antes do tempo mais comum. Agora pagava as contas acumuladas, era preciso abrandar e não sabia bem como.
Para já, assentar num lugar mais tranquilo do que Paris ou Washington, os dois pólos da maior parte da sua vida, onde as solicitações seriam sempre irresistíveis. Depois, a seu tempo mas não muito, a intervenção cirúrgica que lhe poderia prolongar a vida. Dicey, era o prognóstico do lado americano, cuidadoso com as possíveis interpretações jurídicas e com os seguros; faisable, respondiam os franceses com a garantia que dá um Estado-providência. Entretanto, ele avaliava um convite para um trabalho mais calmo num Instituto em La Jolla, na Califórnia, um lugar onde sempre pensou que gostaria de viver, um dia, muito mais tarde. Uma oportunidade, mas não uma hipótese, porque a sua cara metade queria voltar ao pais de origem.
Recordou-se das trocas de haiku com uma historiadora da Universidade em Tóquio acerca da nova casta de viajantes globais, cujo inicio ela datava das viagens de exploração dos portugueses no renascimento europeu. Ela achava que eles tinham sido os primeiros "albatrozes", os primeiros filhos do vento a espalharem-se pelo mundo inteiro, os que só ocasionalmente vêm a terra, só ocasionalmente renovam os laços que todavia pensam manter para sempre. Como é difícil para os que pertencem em terra, mesmo que sonhem partir. Como é mortal prender ao solo os que pertencem aos ventos do largo, mesmo que queiram ficar.
Olhava os braços de nuvens, que se enrolavam em remoinho, apontando para um centro no horizonte, distante e vago como as memórias do seu passado. A sua vida era semelhante ao anti-ciclone, a maior parte das vezes  cavalgando os ventos do Atlântico, deslocando-se duma costa à outra, quantas notícias, acontecimentos, decisões, tinham tido este cenário. Este era o centro do seu mundo, um mundo ao qual tinha dado tantas voltas, de várias formas, desde a infância e cada vez mais depressa. As primeiras viagens nos velhos paquetes coloniais, depois os aviões a hélice e mais tarde a jacto. How ironic, que neste momento, a duas vezes a velocidade do som, tivesse que contemplar a necessidade de abrandar, de diminuir, de aceitar limites, de mudar, de olhar de frente a progressiva obsolescência. Começa com o dobrar das asas, o caminhar desajeitado no solo, acaba com a asfixia da falta do horizonte indispensável.
JSR

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